Remeto-me aos cinco ou mais anos.
Quando aqui cheguei junto aos meus pais vindo de Boa Esperança celebrando meus cinco aninhos. Passando a morar naquela casa daquela rua tantas vezes decantada em eternas saudades de nome ainda Costa Pereira.
Espero não mudem seu nome para Rua dos Rodartes, pois tantas famílias ilustres passaram por ela e poucas ainda restam.
Já na escola, depois de passar pelo jardim da minha infância naquela escolinha a frente da casa onde vivi nos primórdios da minha vida.
Lembro – me bem da minha primeira professorinha que me ensinou a soletrar de nome dona Beliza. E a seguir a sucedeu outra que ainda vive e da sualma àquele colégio mais que centenário de nome Gammon, dona Vandinha.
Já tendo aprendido as primeiras letras e por elas me apaixonei.
Quando minha professora me pedia e eu ouvia atentamente seus ensinamentos dizendo mais ou menos assim: “Paulinho, levanta da sua carteira, presta atenção na minha aula. Pare de sonhar como sempre menino. Vai depressa ao quadro negro. Pega o apagador que fica sobre minha mesa e apaga tudo que está escrito em giz branco sobre a lousa cinzenta”.
E eu apagava depressinha envergonhado vermelhinho na minha carinha por ter olhado dantes de que cor era a calcinha daquela linda coleguinha que assentava ao meu lado. Que, num descuido intencional cruzava suas lindas e lisinhas perninhas dando-me aquele lance que me permitia ver dentro não apenas de sualma como aquilo com que sonhamos sempre na passagem da adolescência à vida adulta.
Tenho tentado apagar, não com aquele apagador da minha sala de aula. E sim com outros apagadores que me acompanham vida afora.
Tento tirar de dentro de mim tudo de mal que me aconteceu.
Pena que coisas boas passam. Como quando tinha meus pais ao meu lado. E com eles ia a fazendinha da Cachoeira na zona rural de Perdões cidade onde nasceu minha mãe e outros tantos Alvarengas e gentes boas demais.
Tenho tentado apagar lembranças tardias.
De quando deu tudo errado nas minhas pretensões de passar férias de final de ano noutra fazenda. Dessa feita a do tio Zito Abreu, irmão mais longevo do meu pai. Por ter ficado em segunda época em matemática tive de passar dezembro quase inteiro naquele mesmo colégio estudando um cadinho mais.
De vez em quando tento apagar aquelas lembranças funestas de quando perdi primeiro meu pai. Sucedeu-lhe o passamento de minha querida mãezinha três anos depois.
E como doeu em mim velar o corpo sem vida da minha mãezinha naquele cômodo frio.
Não me lembro nem o dia nem o mês de quando foi. Somente o ano fica grudado em mim em dois mil e três.
Quando varei aquela noite sombria sozinho mais um cãozinho dormindo ao pé do caixão.
Essas recordações não se apagam dentro de mim. Se pudesse apagá-las-ia pra sempre, mas não me permito.
Muitos desejam apagar, ou tirar de dentro de mim outras passagens vividas por minha pessoa.
Como exemplo uma mulher que hoje faz parte do meu passado, linda ainda presente. Mas infelizmente ela mora numa cidade distante. E não tenho o direito de alimentar ilusões de tê-la de novo ao meu lado, pois vivemos realidades díspares. Fizemos nossas opções, não sei se minha escolha foi acertada. E só irei saber em outra vida não nessa que vivemos agora.
O fato que exprime a verdade é que não consigo me ver livre do passado.
É só olhar pela janela que se abre aqui do meu sétimo andar a mão esquerda.
E no meu olhar no sentido mais abaixo vejo quase tudo.
Tanto nesse lindo e fresco vinte e um de julho, nessa linda manhã que se abre em sol.
Vejo a olhos desnudos aquela mesma rua com seu casario baixo salvo um prédio de maior altura recém construído na minha e dos outros Costa Pereira.
Pra onde vim aos cinco anos. Onde aprendi a ter amigos muitos já desaparecidos.
Ao mesmo tempo não consigo apagar aquelas saudosas lembranças de quando fui criança, ao lado dos meus pais e de outros amigos que hoje moram no mesmo lugar, de nome CÉU.