O que pra mim e pra vocês da no mesmo que se sentir realizado?
Chegar ao final da vida montado numa grana enorme?
Nadar, sem medo de afogar as mágoas numa piscina cheinha, como a do tio Patinhas, lotada até na beirada de notas graúdas de não menos duzentos reais?
Ou se cercar de amigos de verdade não falsos como o sorriso de um vendedor que te recebe na sua loja apenas e tão somente interessado em desovar aquele produto encalhado e não na qualidade daquilo que tenta passar adiante?
Pra mim a realização maior da minha vida é, antes de chegar ao fim. Que espero estar ainda distante desse vinte de julho. É poder entrar em livrarias espalhadas Brasil afora e ver que meus livros são vendidos como bananas madurinhas disputadas num zoológico pela macacada faminta.
Quem não conhece o tal Zé do Bode é só apear numa rocinha vizinha a minha.
Essas propriedades mínimas, do tamainho exato de uma piscina olímpica se tanto.
Fica a um tiro de espingarda de chumbinho de uma cidade linda aqui pertinho daminha de nome Ijaci.
Eu e o Zé não somos íntimos nem amigos como eu e meu caseiro Tom Zé.
Aquele sujeito honesto que não é como um advogado safado que se o virem com as duas mãos no próprio bolso corram dele às léguas.
Não é de costume de um defensor das leis enfiar suas mãos sujas no bolso da própria calça. E sim no bolso de seus clientes cuidado com o tal.
Tenho um conhecido de anos idos, um advogado criminalista que, quando um freguês comete um homicídio evidente sem nenhuma evidência de que não foi ele.
Uma vez no tribunal do júri a primeira instrução que o tal causídico passa a ele é essa: “quando o promotor te arguir se foi você quem matou a vítima diga sem piscar ou pestanejar. Juro que não fui eu. Estava morando em Pasárgada não aqui. Lá sim é o meu lugar e não tenho de pagar aluguel no qual dou calote tanto aqui quanto naquele lugar”.
Zé do Bode, podem me perguntar por que Zé tem um Bode no sobre?
Essa história é tão antiga como a serra da Bocaina que daqui se avista à distância.
Em menino Zezinho tinha um bodinho novinho sob sua proteção.
Ele nasceu meio zarolho com um olho só.
O bodinho do Zezinho quase encalhou no canal do parto de sua mãe boda velha.
Não fosse a pronta intervenção daquele garotinho esperto o bodinho não teria vida longa nem curtinha e naniquinha como elezinho.
Zé espichou bem pouquinho como seu bodinho nanico.
A duplinha não chegou a metro nem um mucado.
Tempos deixaram marcas na vidinha dos dois amigos.
Quando Zezinho ia à escola seu bode ia junto.
Eles não se desgrudavam. Mais se pareciam a bananas nascidas em filipe.
Dizem as comadres fofoqueiras que, se Zé do Bode não assentasse a uma carteira e seu bodinho a outra ele, o Zé dono do bode fazia birra e saía da escola aos berros fazendo bééé num sem fim nem final.
Aos trintanos Zé do Bode criou metade do juízo. A outra metade ficou com seu bode amigo.
Zé do Bode começou a trabalhar já tarde, nessa idade que muitos já ganharam dinheiro e má fama de sem vergonhas. E não se desunia do seu bode já adulto.
Eram unha e carne. Dois em um só.
Naqueles anos da minha história, que nem bem começou e já tem fim.
Naquele final de semana dei com o Zé do Bode sorrindo sem saber a razão.
Ele mostrava dentro de sua boca aberta, sem nenhum dente pra contar esse causo.
Gengivas rosadas e sadias e um sorrisão a clarear a escuridão daquela madrugada sombria.
Fui eu quem puxou prosa desse jeitim desajeitado: “Zé, tem alguma coisinha te incomodando? Tá rindo de que Zé se não viu quem foi campeão da copa? Não foi nosso país não e sim a Espanha que jogou bem melhor que los hermanos”.
Zé, ainda rindo de coçar o cotovelo me falou nessa vozinha fanha e bem baixinha como ele e seu bodinho: “ah meu amigo. Tô pra mais que realizado. Um farmacêutico amigo meu, com quem estive trasanteontem na sua farmácia. Me deu de graça um remedinho milagreiro que fez milagre com meu bodinho nanico. Ele nasceu pequenininho. Cresceu menorzinho ainda. Dantes não tinha nem metro e nem mucado. Agora, com esse remedinho novo meu bode já tá do meu tamainho mínimo de menos de metro e não mucado. Tô rindo assim não é atoa e nem sou um sujeito atoa bem sabes”.
Deixei meu não tanto amigo Zé do Bode falando sozinho.
Eu heim!
Cada um tem a realização que merece.
A minha já deixei escrita antes…