Morte, palavra que tenho usado incontáveis vezes nos meus escritos.
De tanto desenhar em palavras a morte. Tanto em letras negras como negros são os urubus. Seus arautos aves agourentas que ninguém admira a não os quer ver presos em gaiolas já que urubus são desprovidos de beleza e nem cantam como os rouxinóis e canarinhos da terra já amarelinhos desfeitos em pardinhos filhotes novinhos.
E, mais uma vezinha só indago: “ não temos a primazia de avoar. Levitarmo-nos aos céus já que não temos asas. E quando vemos urubus bem no alto, voando nas alturas aproveitando as correntes do ar. Ou, quando vi incontáveis vezes essas aves que um dia foram urubuzinhos de penugens branquinhas, há pouco tentando voar sozinhas sob olhares zelosos da mãe urubua. Depois de uma chuva graúda secando suas asas negras ao sol do meio dia num mourão de cerca qualquer.
Morrer, depois de termos nascido num ano distante qualquer para os de mais idade.
Deixar de ver a vida tão linda escorrer por entre nossos dedos resultando na morte que seja incerta ou ocorrida num dia certo.
Me vem a memória aquela data velhusca de um mil novecentos e quarenta e nove, sete de dezembro em Boa Esperança cidade onde nasci.
Ainda nos meus poucos aninhos a palavra morte pra mim era desconhecida já que só pensava em folguedos.
Em menino ainda só pensava em duas datas bem próximas. Elas duas em dezembro.
Dia sete era meu aniversário. Vinte e quatro daquele mês final de ano mal dormia pensando no que Papai Noel me daria. Sonhava com aquela bicicletinha de rodinhas amarelinhas. Das quais delas me desvencilhei conseguindo pedalar somente eu sob olhares complacentes dos meus pais. E me lembro ainda, sem saudades, dos tombos que levava e dos galos que não cantavam que brotavam na minha testa não tão ampla como a tenho agora.
Depois de tantos anos passados, eu já velho em boa hora ainda me tenho como menino.
O tema morte tem sido uma constante nas minhas crônicas.
Quantos textos já deixei escritos no Post mortem de amigos meus.
Quantas infindáveis homenagens já escrevi lamentando o passamento de pessoas da nossa cidade.
E quando eu tiver de morrer lhes pergunto: “quem e o que alguém vai escrever sobre mim”?
A gente vai morrendo aos pouquinhos, de cadinho a cadinho. Uns mais prematuramente outros tardiamente.
Mais uma vez deixo-lhes essa interrogação: “qual a idade certa de morrer? Teria um dia ideal? uma data especial”?
A minha já está definida e não volto atrás: trinta e um de fevereiro de um ano desconhecido.”
Se querem outra escolham a de vocês.
Penso que desejo morrer não hoje, nessa linda manhã de domingo. Nem na segunda feira que cai amanhã vinte de julho, dia do nascimento do meu primeiro neto Theo.
Morrerei quando deixar de viver. Parece óbvio não?
Vou começar a morrer quando minha saúde definhar lenta ou apressadamente.
Não terei pressa nenhuma de me despedir de vocês, que sejam amigos ou mesmo desconhecidos.
Morrerei devagarinho não.
Não quero sofrer inerme num leito de hospital com veias pegas e sondas introduzidas em minhas cavidades.
Desejo sim morrer com saúde de noite sem acordar e sentir nalgum lugar a brisa fresca da primavera desmanchando meus cabelos tintos em neve ralos que são.
Que morram primeiro minhas doenças. Sem elas, inopoturnas mazelas, não irei morrer jamais.
Mas uma coisinha somente lhes peço, se possível que seja de joelhos postados na terra dura de uma rocinha qualquer, que seja a minha.
Não me deixem nunca sepultar um filho ou um dos meus queridos amados netinhos.
Se assim for não deixarei jamais eles partirem sozinhos, pois estarei juntinho a eles onde quer que eles forem.
Morrerei feliz se meus livros todos forem juntos a mim no meu ataúde. Ao lado de flores do campo sem deixar mágoas de ninguém.
Morro num morro agudo.
Não desejo que eu seja incinerado o mesmo que cremado. Se assim for permitam-me mais um pedido: “que seja queimado numa fogueira de São João aqui pertinho em Ingaí.
Morrerei feliz sorrindo dos que a mim insultaram.
Não irei lhes perdoar, pois eles nem saberão que lhes perdoei, pois já morri.
Um dia despedir-me-ei de todos vocês.
Só lhes peço uma coisinha mais.
Ao derredor do meu caixãozinho, da corzinha que vocês quiserem, no meu velório não falem que eu era bom, pois não irei escutar.
Nem que eu era ruim demais. Pois eu morto, prestes a ser enterrado. Não poderei revidar as ofensas que no meu corpo sem vida irão me difamar.
Se quiserem encomiar meus escritos que leiam-nos primeiro; pois se morto estiver não poderei escutar tanto as bem querenças ou as más.