Quantas vezes sonhei em ser alguma coisa e essa coisa não veio a ser nada daquilo que imaginava.
Mesmo assim, eu menino sonhador, de noite fechava meus olhinhos meio castanhos, meio esverdeados. Da corzinha dos da minha mãe Rute. Naqueles idos anos dormia muito tal e qual um menininho que era. E agora tenho medo da noite, já que de mais idade não tenho por elas em alta estima. Durmo um cadinho apenas.
Entre quatro, mais meia, se tanto.
E não é que acordo bem disposto?
Mas não procurem fazer igual a mim. Já que preconizam os entendidos que pelo menos oito horas de sono leve faz muito bem à saúde. A minha não tenho como dela reclamar. Creio que nem ela se queixa de minha pessoa.
Pra quem não conhece a história de Ícaro relembro-lhes para lhes avivar a memória.
Esse de quem falo agora é um personagem da mitologia grega, filho de Dédalo, um grande inventor. Presos na ilha de Creta, Dédalo construiu asas de penas unidas com cera para que ambos pudessem fugir voando.
Antes da partida Dédalo advertiu ao filho para não voar muito baixo para que a umidade do ar não molhasse as asas, nem muito alto para que o calor do sol não derretesse a cera.
Encantado com o vôo Ícaro ignorou o conselho do pai e subiu cada vez mais. O calor do sol derreteu a cera, as penas se soltaram ele caiu no mar e morreu.
Diria eu: “antes ele do que eu”.
Já o meu Icarozinho, menino artioso, metido desde cedinho a inventar qualquer coisinha.
Na rocinha prejuizenta como foi a minha dantes de arrendá-la ao meu amigo e compadre. Pena que dela se mudou e fiquei no prejuízo e inda mais sem juízo.
Como sempre fui desde criança que não mais sou.
Naquela tarde vestida de noite Ícarozinho, olhando pro céu, quase fechando os olhinhos de tanto sono.
Estando a janelinha do seu quartinho aberta por ela adentrou um vagalumezinho de lanterninha apagada no seu rabicó.
Desde aí o pequeno não mais conseguiu dormir nem de luz acesa como de costume.
Ícaro criança apanhou com as mãos em concha o pequenino vaga lume.
Falando baixinho em seu ouvidinho essas palavras doces na intenção de consolá-lo já que pensou ser ele um perdido e não ainda achado.
“Meu querido luzinha apagada. Não se preocupes. Vi que ocezinho entrou pela minha janela pensando encontrar sua pilha metade. Sei ainda que vocês, pirilampos, carecem de pilhas novas a serem trocadas pelas suas baterias quando gastas. Se não vão ter de voar na escuridão das noites escuras mesmo enluaradas. A essa hora não vai encontrar uma loja onde se vendem pilhas das grandes, médias nem do tipo palito. E, se encontrar alguma loja de plantão ela vai te cobrar caro. Não se apoquente querido. Sonhei ontem de noite que na gaveta da minha incômoda cômoda tinha uma caixinha cheinha de pilhas semi novas quase novinhas. E sonhei ainda que ao encontrá-las deu certo e sua nova bateria fez que sua lanterninha de novo iluminasse sua bundinha apagada”.
Já quase meia noite ouviu-se, no silêncio daquela noite um bate palmas como se alguém fizesse aniversário.
E não era nem o pequeno Ícaro nem o vagalumezinho que era chamado de Luzinha Apagadinha e foi rebatizado como Luzinha Acesa.
A noite se fez madrugada e a madrugada vestiu-se de gala no despertar de mais uma manhã.
Já com as luzes do sol acesas o de novo Luzinha Acesa. Dantes vagalumezinho Luzinha Apagada.
Ele disparou pela janela aberta. Levando na cauda do cometa o pequeno Ícaro com aquelas asinhas de cera que se derreteram todinhas no calor do sol.
Contrariando as sábias recomendações do seu querido pai inventor Dédalo.