Nesse meu longo périplo pela medicina, cinquenta e um anos meus colegas celebramos nesse mês de julho quase dando lugar a agosto entrar.
Nem me lembro nem gostaria de me recordar de quantas dores, maiores ou mais pequeninas tive de aqui ou acolá ouvir sem emitir opinião. Desse lado da minha mesa desse meu consultório. Já tive outras salas dantes em outros luares e aqui me fixei desde longos anos. E essa aqui é a mais aconchegante e a mais linda dentre todas nesse meu sétimo andar. Deixando-me descortinar pela janela uma vista maravilhosa onde me permito ver, à distância, parte do meu passado. A rua onde cresci e aprendi que boas amizades não são de se jogar fora e sim conservá -las guardadas aqui dentro até aquele infausto dia de nos despedirmos dos moleques da Costa Pereira. Pena que muitos já não mais estão aqui a brincar comigo de jogar finca e bete. De jogar bolinhas de gude e desvirar figurinhas em tapões que ecoam ao longe em bons ouvidos.
Em tempos que lá se vão. Eu, médico feito, nos idos tempos de um mil novecentos e setenta e sete. Quando aqui apeei vindo da Espanha, deixei Madri envolta numa névoa branca de saudade daqueles novos e velhos esculápios espanhóis com os quais aprendi muito e pouco ensinei. Chegando de Barcelona num navio enorme aportando ao Rio de Janeiro naquele calorão usando um cachimbo que tenho ao meu lado esquerdo que aprendi a gostar mesmo sem saber tragar. Um casaco de couro marrom e não me lembro qual calça usava no desembarque tumultuado nesse meu país amado e ao mesmo tempo conturbado e de tantas desigualdades sociais que abomino. Trazendo na bagagem novidades que pra os europeus nem eram tantas.
Uma vez aqui estabelecido, único urologista nesse pedaço do sul de nosso estado. Ávido por mostrar serviço, operando com mãos ainda trêmulas nos três hospitais. Não sabendo o que seria ter uma boa noite de sono, pois me chamavam ao telefone. Não esse andejo de nome celular do qual não podemos nos ver livres jamais. Ele fica grudado a gente como o cordão umbilical fica no recém nato.
Em outro consultório onde comecei minha vida profissional numa rua central mais abaixo. E noutra sala aqui pertinho. Ainda médico especialista jovenzinho vindo de terras d´além mar.
No meu afã de ganhar dinheiro no meu começo de vida. Ainda solteiro e apenas comprometido com minha carreira incipiente. Mal tinha tempo de escutar os queixumes dos enfermos que do outro lado da minha mesa se assentavam. E, ouvia em curtos momentos o que meus pacientes traziam. Se eles sentiam dores, se eram dorzinhas miúdas ou maiores logo os intimava a passar a outra sala a fim de examiná-los brevemente.
Felizmente nesses meus quase cinquenta anos de medicina creio ter-me tornado um médico melhor.
Consegui domar em parte minha ansiedade.
Não a minha e sim no trato com os enfermos.
Escuto mais antes de dar um diagnóstico.
Não me apresso a levar meus pacientes à sala de exame.
Deixo-as a vontade, sejam eles particulares ou conveniados.
Oiço seus queixume atentamente. Sou-lhes todo ouvido.
As suas entradas, depois que passam pela minha secretária a prestimosa Zaninha.
Levanto-me da minha cadeira e aperto-lhes as mãos com as minhas.
Não emito minha opinião sem antes escutar deles seus queixumes.
Quando um paciente jovem e saudável aqui se apresenta queixando-se de inadequação sexual, depois de vê-lo despido e examinar minuciosamente sua região genital e ver que tudo aquilo nada apresenta de anormal espero o mesmo de volta a minha sala e só então dou-lhe o veredicto final.
Aprendi, sabedor que a vida é um eterno aprendizado.
Que muitas dores são nascidas de verdade em órgãos doentios.
Como quando uma pedrinha marota, nascida em um dos rins, desce intempestivamente pelo ureter infelizmente encalhando no meio ou no término do caminho e não pode, pelo seu tamanho não reduzido, ser expelida ao lume da luz dos dias.
No entanto outras dores de verdade acontecem de repente quando um enfermo. Não da minha especialidade e sim doutra da alçada dos cardiologistas. Uma dor súbita e lancinante ele sente no próprio peito nascendo aí mesmo irradiando-se para um dos braços. Uma dor forte ou até mesmo suave que pode, se não tratada em tempo oportuno pode levar a pessoa ao óbito.
São tantas dores que aqui observei, desde tempos idos até esse dia que nasceu inda pouco.
Esse tipo de dor pra mim médicos não são capazes de oferecer um tratamento curativo ou mesmo paliativo.
São dores não como aquelas que a gente sente ao dar uma topada desavisada numa pedra que se interpõe em nosso caminho.
Nem são dores semelhantes quando um furúnculo nasce do nada na ponta de nosso nariz quando adolescentes oriunda de uma espinha que não vaza e a gente a espreme sem lavar os dedos.
As dores mais doídas no meu entender são aquelas advindas de dentro da gente.
São pra mim as dores da ausência de um ente querido que se foi antes do nosso tempo.
Tomando como exemplo do meu pai que assentava-se à cabeceira da mesa de jantar.
E hoje seu lugar está vazio.
A dor profunda que se assemelha a um punhal que nos ensarta dentro peito e não faz sangrar por fora e sangra e dói muito por dentro.
A dor também muito doída daquele amor que perdermos e nos arrependemos amaramente de tê-lo perdido, infelizmente.
A dor do arrependimento de não termos ajudado a nossa mãezinha quando ela mais carecia de nossa presença e nós recusamos a ela ajudar.
Essa outra dor tão dolorida ou mais ainda que uma cólica renal quando um pequeno cálculo não sai pelas vias naturais e temos de ajudá-lo a nascer introduzindo uma sondinha numa intervenção peculiar a minha especialidade a Urologia. Essazinha que mais e mais evolui e não somos capazes de acompanhar tantas modernidades.
Existem dores e dissabores de distintos sabores.
Doces como o gosto adocicado de laranja da ilha docinha.
E dores amaras como a dor de termos perdidos horas e outras horas a olhar como ter visto meu pai, nos seus instantes finais. Devido a pior das enfermidades de nome Alzheimer ao vê-lo sofrer com aquele olhar perdido no vazio do nada.