Até pouquíssimo tempo não sabia distinguir entre valores reais de uma nota de um dólar e nossa moeda de um real.
Sempre fui inimigo figadal dos numerais. Meu pobre fígado sentia-se mal como eu, dono dele, também.
Desde meninozinho novinho pelas letras tinha o maior chamego. Apesar dos meus escritos a mão armada serem quase ininteligíveis até nos tempos de hoje minha letra quando prescrevo uma receita nem o farmacêutico consegue decifrar.
Muitos pacientes impacientes, quando a consulta finda e saem ou satisfeitos ou não de aqui da minha oficina onde ainda trabalho de segunda a sexta. E ainda não me aposentei por completo e nem pela metade. Quando rabiscam os olhos no meu receituário voltam a minha sala revoltados e me pedem, encarecidamente, por gentileza imprima a receita já que minha impressora é boa como minha saudosa mãezinha e outras mães foram.
Isturdia, noutro dia se preferirem, quando, num supermercado aqui pertinho estava, de frente a um casalzinho simpático, jovenzinhos ainda. Antevendo que não eram ainda casados e sim namorados. Fiz essa mesma pergunta manjada que faço de quando em vez quando pelas ruas passo: “os senhores conhecem um bom urologista aqui em nossa cidade? Um que porventura de uma aventura seja escritor também”?
A mocinha moreninha fez uma pesquisa entre seus neurônios, pensou repensou e disse não saber. O rapaz, idem.
Continuei a prosa pra mim mais que boa: “me desculpem se os incomodo. Quantos anos vocês têm? Estudam ou já são formados e bem informados sobre as fofocas corriqueiras. E, mais somente uma inquisição. O que sonham ser num futuro”?
O atento rapazola, de olho em mim e o outro olho na sua namoradinha, bem bonitinha por sinal. Amavelmente me respondeu que era empregado numa oficina mecânica e era chapista (até agora não sei o que faz um chapista, se sabem me informem por favor).
E a mocinha moreninha lindinha me respondeu prontamente que gostaria de ser uma INFLUENCIADORA VIRTUAL ( tudo isso em maiúsculo pois ela falou bem alto) .
Nada falei a ela e sim pensei cá comigo.
Isso de ser influenciadora virtual é profissão mesmo?
Pra mim ser um profissional se resumia em ser professor, engenheiro, pedreiro, médico e inté marreteiro se me permitirem.
Mas influenciador virtual não se trata de nenhuma pessoa virtuosa que possa influenciar nada de bom as futuras gerações.
E sobre as palavras que deram título a minha crônica de hoje bem cedinho – inversão de valores?
Como isso tem-me dado o que pensar e hoje deixo escrito.
Nem bem a madrugada abriu seus olhinhos clarinhos e sonolentos Palhinha e sua amada esposa já estão carpindo e plantando verduras na sua enorme horta de couve, um grande canteiro de rúculas, alfaces de todos os tipos, beterraba eles não plantam por isso não colhem e não podem vender a preços bem convidativos. Uma grande plantação de mandiocaS que se derretem todas só de ver água esquentar. E, além disso tudo na sala de ordenha uma vacada faminta muge de saudade das suas crias e ainda se deixam ordenhar.
Suas lindas filhinhas ainda dormindo esperam a mãe para ir a sua lojinha na cidade de Ijaci para vender seus produtos ditos orgânicos, saudáveis a nossa alimentação, que meu netinho Dom adora se dizer garoto saudável.
Palhinha, um dos filhos do meu amigo já falecido Tião do Cervo, que morava numa rocinha vizinha a minha. Senhor famoso nas vizinhanças não somente pela generosidade como da mesma maneira por ter sido ainda lembrado pela força que empunhava tanto a enxada como a picareta. E não era absolutamente um picareta como doutros que passam a perna nos outros como tantos por aí.
Meu amigo Tião Bala, como também era chamado. Não sei a razão pois, que eu saiba a única bala que ele gostava era a tal bala Chita que eu tanto gosto. Aquela zinha que vem embrulhada num papel amarelinho com a carinha da macaca sendo vista nesse papel de embrulho.
O não tão velho Tião, que veio a se despedir da gente aqui pertinho nesse hospital onde de vez em nunca hoje opero e já operei bastante anos antes. Em muito se assemelha ao seu filho Palhinha. A grande distinção entre eles dois é essa: enquanto Tião do Cervo plantava verduras na sua enorme horta onde ele plantava de tudo um cadinho e não vendia nada aos outros e dava de graça tudo que produzia de montão. Seu filho exemplo de tudo aquilo de bom a deixar as futuras gerações e não tem a pretensão de ser um influenciador virtual embora seja uma virtuosíssima pessoa, pai exemplar, marido fiel e devotado a sua esposa Cristina, e homem com H maiúsculo. Vive numa rocinha que não é dele e tem de pagar um preço grandão que soma a setenta litros de leite ao dia. Tem de acordar bem cedinho, ir junto a sua esposa colher verduras para vendê-las a possíveis fregueses. De voltar ao curral para dar de comer as suas vacas sempre famintas. Entregar a produção ao caminhão leiteiro que passa a cada dois dias na sua morada alugada e bem paga.
Nunca vi esse Palhinha de cara feia ou de mal com a vida. Sempre de cara boa ele me recebe aos sábados quando por ali passo rumo a minha rocinha que não mais é minha.
Perdemos mais uma copa, nem ficamos entre os melhores.
Agora a minha torcida vai para a Espanha onde vivi os melhores dias da minha vida.
Que país maravilhoso é esse. Que cidade encantadora é Madrid onde conclui minha especialidade Urologia. Foi um ano inteirinho estudando e viajando por toda Europa, uma partezinha da Ásia de nome Turquia, em Istambul fiquei por uma semana inteira, sozinho me comunicando em inglês.
Penso termos dado um enorme vexame por termos saído prematuramente dessa competição futebolística que está prestes a terminar.
Agora, voltando ao assunto inversão de valores.
Palhinha, nessa hora, seis e quarenta dessa manhã de julho, nessa quarta feira, que começou fria e agora ensolarada. Acordado em plena madrugada a fim de tirar leite. Sua esposa Cristina já deixou sua horta com caixas lotadas de verduras. a fim de vendê-las em sua loja na cidade próxima. Amanhã vai ser tudo igual, a mesma rotina costumeira.
Nossa pior, pra mim, pior influência que garotos trazem seu nome e de outros jogadores escritos por detrás de suas camisetas que custaram bem mais que tudo aquilo que Palhinha e sua esposa plantaram e viram o suor despencando em seus rostos exaustos a cada dia.
Enquanto Neymares da vida, mesmo perdendo a disputa, continuam arreganhando sorrisos.
Passando dias de ócio em resorts caríssimos em qualquer lugar idílico mundo afora. Que desaforo penso eu.
Isso pra mim é um exemplo clássico do que chamo de inversão de valores.
Aqui, em nosso amado Brasil, dá-se valor a quem não merece.
E aos valorosos Palhinhas e outros tantos iguais, que enchem nossas mesas de comidas fartas e saudáveis.
Permanecem na obscuridade, tais e quais vagalumes de luzinhas apagadas.