Agora, nem cinco da madrugada chegou, e aqui estou nessa segunda feira, treze de julho, já na minha oficina de trabalho. Onde trabalho pouco na minha especialidade dantes em outros anos trabalhava mais. Ainda não antevendo meu descanso da medicina e nem de longe penso em me aposentar por completo. Aí, esse ócio completo pra mim seria o começo do final.
E quando chega a essa hora de rotina já estou de pé lavando meu rosto ainda sonolento. Tratando de manter meus dentes em bom estado para que possa sorrir aos que sorriem pra mim e até mesmo aqueles que passam carrancudos a minha frente.
Visto uma roupa dependurada no cabide já escolhida na noite de ontem. Nos pés descalços um dos meus pares de tênis já me espera a frente do meu leito onde ainda cochila minha parceira de tantos anos.
E aqui chego numa curta caminhada já que moro aqui pertinho e reencontro as ruas vazias pois poucos madrugões já estão a caminho do trabalho que mais e mais escasseia nesses tempos onde a crise arreganha os dentes. Vejo, nas minhas andanças pela cidade lojas vazias, pessoas infelizes não sei a razão. Se pudesse daria a elas um cadinho da minha alegria mesmo que estivesse triste coisa que poucas vezes percebi em mim.
Já estou descendo a serra, não a da Boa Esperança aquela da cidade onde nasci.
A subida não foi tão difícil já que tinha meus pais a me ajudarem na escalada.
Caí algumas vezes, mas me levantei e cheguei na descendente com minhas pernas ainda fortes e seguras como as tenho agora.
Hoje, na planura da minha existência, ainda milito, sem ser militar, não antevendo a data, o ano e o mês da minha partida. Se pudesse retardar esse infausto dia fa-lo-ia sem pensar duas vezes.
Mas chega uma hora, quando o relógio dos anos nos diz estarmos na aurora de nossa vida, que devemos nos preparar para o descanso eterno.
Ainda bem que minha hora penso estar distante de hoje se mostrar.
Que ela venha sem maiores estardalhaços.
Que seja num domingo ou num feriado prolongado para que, no meu velório as pessoas realmente amigas e queridas não percam um dia sequer e não sejam despedidas do seu emprego em injusta causa.
Que eu parta rumo a um lugar desconhecido que seja ele lindo como um ipê florido.
Que na minha viagem, essa sem volta não cause revolta aos meus desafetos. E seja realmente sentida pelos meus amigos.
Chegamos a uma hora que horas não nos interessam mais. Já que teremos uma infinitude de momentos para prosear com os anjos, contar-lhes causos tantos como sei descrever.
Vamos chegar a uma hora sem pressa de a ela chegar.
Nessa hora maravilhosa deixamos a pressa, a intolerância, a malquerença, as desavenças, pensamentos negativos, tudo que nos aflige fechados num grande baú desses bem antigos trancado com um ferrolho e um cadeado inviolável.
Penso já ter chegado a essa hora…
Agora pra mim tanto faz como se desfaz desde que não falem de mim pelas costas e me encarem de frente e discutam veementemente suas opiniões mas deixem-me dar as minhas.
Não quero ser dono sozinho da verdade e gostaria muito que dividíssemos nossas responsabilidades para que o fardo pesado dos anos não me façam curvar sobre mim mesmo.
Hoje, depois desses meus setenta e muitos anos. Muitos deles escrevendo tanto. Tendo minhas noites povoadas de sonhos delirantes e pensamentos incontáveis.
Não me tenho como arrogante ou petulante. Não desfaço das pessoas mesmo elas simplesinhas e pobrinhas. Não tenho pelo dinheiro em alta estima. Pra mim me basta e me sobra com fartura o que percebo de salário e o ganho aqui no meu consultório onde minha agenda quase sempre se mostra vazia.
Não tenho muitas pretensões nos tempos de hoje. Já fiz muito pelos outros e pretendo fazer mais por mim mesmo.
Ainda não chegou a minha hora. Comecei esse texto as quatro e meia da madrugada.
Agora são cinco e trinta e um minutos.
Quando chegar a minha hora não façam hora comigo.
Não se debulhem em lágrimas falsas por cima do meu caixão que não as verei.
Não digam em palavras mentirosas que eu era uma boa pessoa e bem apessoado.
Se puderem prefiro enquanto puder olhar nos seus olhos e enxergar verdade neles.
Quando velhos ficamos mais sábios nos olhamos no espelho e ele reflete a verdade.
Dai a minha ojeriza quando mentem a nós.
Somos menos crédulos na maior idade. Não digam que somos cartas fora de um baralho e nem um sapato velho que não mais pode ser ressolado.
Um dia vai chegar nossa hora.
E a de vocês, jovens, meninos, ela pode demorar mais um cadinho.
No entanto ela chega como a nossa está chegando.