Quem tem asas e não sabe o quão é lindo e maravilhoso olhar a terra lá de cima.
Admirar a azulice do céu, o brancume das nuvens que se acinzentam quando vai chover.
Ver nosso planeta tão lindo de cima, sem enxergar as podriqueiras aqui em baixo que nos ofendem não só as narinas como o decoro.
E mais embaixo o vôo lento dos urubus que aproveitam as correntes de ar pra se manterem nas alturas. ´
Pena que dentro dos aviões, em vôos longos a gente apenas assentamo-nos a umas poltroninhas apertadinhas e ali ficamos horas e outras horas, doze ou mais, sem podermos ver o céu já que pela janelinha redondinha, sempre fechada, não nos deixa ver quase nada a não ser o bafo de uísque do passageiro do lado que viaja brigando com a aeromoça por causa nenhuma.
Não digo que não gosto de viajar. Já bati pernas não asas meio mundo.
Morei num país estrangeiro e ali não parava quieto uma semana inteirinha.
De Madri dei voltas na Ásia, rodei Espanha inteira não tendo ido a nenhuma tourada festa em decadência pois hoje o que os espanhóis amam como a gente, embora sejam melhores com a bola nos pés, é o tal futebol que pra já foi o esporte preferido e hoje tenho pelo tênis meu maior chamego.
Já hoje, depois de ter rodado o mundo inteiro tenho pelas viagens longas outro conceito.
O melhor delas é quando chego a casa.
Viajo também escrevendo como estou nesse momento.
No meu apartamento não apertado como uma quitinete onde nem se pode andar de patinete pois ali não tem espaço. Fico umas horinhas apenas já que saio bem cedo para aqui onde estou agora.
À aquele clube divino maravilhoso- Lavras Tênis Clube, na academia passo duas ou menos horas. Na piscina quando o calor incomoda. Nas quadras de tênis já fiquei mais tempo.
Nas minhas viagens ao exterior procuro olhar pra dentro do meu interior.
Querem coisa mais bonita que nossa linda Minas Gerais?
Aqui não tem mar… Mas quem precisa de mar se aqui pertinho da minha amada idolatrada salve-se quem puder, aqueles pobres infelizes que têm infelicidade de morar em Brasília.
Nossa não menos linda capital federal. Desenhada nos belos traços de Niemayer (não confundam com o tal de Neymar, aquele cai cai que, se levanta cai de novo). Que pra mim não serve de exemplo ou nenhuma inspiração para as futuras gerações. Aquele bom jogador em um passado remoto, que hoje infelizmente entrou em decadência graças a sua irreverência e a grana monstruosa que juntou na sua carreira futebolística.
Se vocês querem fazer uma viagem levem pouca bagagem.
Não levem a mala da sua esposa se ela for chata e complicada.
Levem a outra, mas se lembrem que aquela outra deve te fazer companhia em segredo.
Se aquela coisa pecaminosa, mais linda e bela que nosso hino for viajar com você, pague um cadinho mais e viaja na primeira classe mesmo que sejas um descarado desclassificado.
E não carece de ir ao estrangeiro; que sejam os Emirados Árabes que se reunidos todos não chegam nem aos pés chulezentos de nosso sul de Minas. Ou inté mesmo as lindas cidades da Zona da Mata. Que mesmo que elas todas estejam desmatadas cuidado, tem de levar um porrete grandão. Já que matas sem mato pode ter cobra peçonhenta ou onça brava como minha mulher rusguenta.
Já fiz viagem bem curtinha e ainda curto muito minha rocinha prejuizenta. Ali me acho mesmo que a solidão me faça ficar isolado do resto desse mundo imundo.
Na maior parte das vezes ali vou na boa companhia de eu sozinho.
Melhor ainda quando meu caseiro amigo Tom Zé desaparece com seus dois amigos inseparáveis dogs Jack e Toddy vão atrás de sua motoca abanando os dois rabinhos cotozinhos.
Não há quem suporte tanta falação que pra mim é gritaria. Só a santinha de sua mãe dona Maria da Paz, quando ele fala entra por um ouvido e dispara pelo segundo.
Hoje mesmo fui até lá. Dei carona ao meu amigo Tom Zé.
Fomos buscar fogo rápido coma a ventania que desfolhou a árvore que ensombra um banco onde está escrito o nome de um dos meus netos – Dom.
Se tem lugar mais bonito me contem e não seria ingrato se eu descordar de quem disse sim.
E já gastei mais do que deveria a prudência me assoprou aos ouvidos e não escutei.
Fiz uma linda casa que olha a represa do Funil com olhos de puro enlevo.
Ela tem uma varanda onde podem dormir sossegados um batalhão de soldados rasos. Oficiais vão dormir ao relento. Ali só falta uma rede pra nos balançarmos.
A um tirinho de espingardinha de chumbinho fica a piscina sempre limpinha pelo Tom Zé e um salão lindão. Lá da pra dançar um forrozão e qualquer dança de salão pra quem é pé de valsa como eu.
Ainda vou, antes de morrer e me levarem para um caixão envidraçado para que eu não perca a visão desse lindo céu mesmo que seja de noite.
E o local do meu passamento vai ser montado num jumento orelhudo e sarnento. E nós dois, que não somos burros nem cavalgaduras de costas duras iremos trotando represa afora e não vamos afundar.
Da-me pena embora não tenha pena de galinha e sim pena de quem sofre as agruras da vida.
A gente constrói castelos, residências lindas verdadeiras mansões, lugares magníficos que só em Minas tem.
Piscina azulzinha, cascata que nunca foi usada, hidros que nos fazem relaxar as costas e outros espaços ociosos nossos.
Salão espaçoso como o descrito dantes. Um lindíssimo píer que meu amigo caseiro não consegue falar direito e a ele chama “pires”.
Árvores pela minha esposa plantadas que dão sombra a nenhures já que não temos tempo de ficar abaixo de seus achegos.
Uma garagem abrigo para meu barco que uma ou duas vezes viu a cor da água.
Tudo isso dentro da minha rocinha prejuizenta que não mais é minha.
Antes de irmos embora de volta à cidade onde moro e Tom Zé a sua morada.
Tivemos uma boa prosa bem esclarecedora da realidade em que vivemos.
Abriu a matraca Tom Zé dessa vez falando baixinho: “meu amigo patrão amigão doutor Paulo. O pessoal de aqui fala pelas beiradas. Todos gostam e muito do senhor. Pela sua simplicidade como também por sua educação e honestidade. Uma coisinha eles implicam com o senhor. Com uma casa enorme, linda, que deve ter custado os olhos e sua careca brilhante dessas. Nunca o vimos, com sua família, filhos dois e três netinhos. Aqui, há sete quilômetros de Ijaci e dez de sua cidade. Não da pra acreditar. Qualquer dois, dono ou não dono disso tudo. Iria morar aqui e não na cidade com toda a confusão que vive nela”.
Ouvi tudo que ele me disse e me calei sem retrucar.
Mas não respondi e pensei com meus pensamentos. Vagando lentos pela estrada afora.
Infelizmente é assim.
A gente constrói castelos paradisíacos. Casas luxuosas à beira mar. E mal temos tempo de morar dentro deles.
Dai a infelicidade que não se metamorfoseia em sermos felizes. Nem que seja um cadinho…