Valeu a pena?

Algumas vezes me perguntei: “pra que escrever tanto se quase ninguém lê? Pra que acordar tão cedinho somente para escrever? Por que e qual motivo a gente nasce, cresce, velhos ficamos, e de repente, sem mais que num repente, uma doença de nome sensibilidade, inerente e encarregada de fazer doer sem nada que nos machuque a pele, nos faz arrepiar todinho a ver um simples passarozinho, filhotinho ainda, tentar ensaiar seu primeiro vôo solo, com suas asinhas despreparadas para ganhar altura, ao sair do ninho sem a presença da mãe passarinha, num farfalhar de asas se esborracha no chão duro perto da árvore frondosa onde nasceu e ali fecha os olhinhos, morre e vai ao céu levitando sem ainda não saber voar”.
Um grande poeta português deixou escrito na sua poesia “Mar Português”
“Ó mar salgado, quanto do teu sal. São lágrimas de Portugal! Por ti cruzarmos, quantas mães choraram. Quantos filhos em vão choraram. Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
E mais uma vez me indago e afirmo ao mesmo tempo. Pra que usar tanto a pena no sentido figurado. Já que a pena a qual me refiro não é essa pena de dar pena daqueles que não lêem. Os que não cultivam o hábito de uma boa leitura. Que mesmo alfabetizados se dizem iletradas tão somente ligados aos números deixando as palavras desaparecem na ventania.
A minha pena é esse teclado negro do meu computador.
Não tenho pena nenhuma dele. Pobre infeliz aparelhinho que, depois de inventado não lhe dou folga quase nunquinha a não ser certos domingos ou finais de semana quando me faço ausente.
Escrever pra mim é tão essencial como esse ar, mesmo impuro que entra pelas minhas narinas seja de madrugada ou a tarde quase morta que precede as noites.
Ah! Não fossem as palavras bem escritas…
Eu, médico especialista ainda praticante, embora em menor escala. Há cinquenta e um anos de formado. Inconformado e triste com os rumos que a medicina tomou. Essa nobre arte me parece um barco desgovernado à deriva na enchente de águas barrentas.
Seria eu, Paulo Rodarte e qualquer coisa mais. Quase sempre de agenda vazia e inspiração lotada de sentimento. Se não tivesse o dom da escrita que se manifestou em mim há vinte e seis anos antes. Por certo anteciparia a data do meu passamento. Não seria naquele tão falado trinta e um de fevereiro. Quem sabe num outro dia e mês qualquer não definido.
Espero persistir por anos a fio na mesma rotina.
Acordar bem cedinho despertando sempre a mesma hora e aqui chegando junto as manhãs bocejando de sono.
Ligar e nem ligar para as pessoas que, ainda dormindo fecham suas janelas por se importunarem com as minhas abertas nessas horas tempranas.
Pra que publicar tantos livros, que sejam de crônicas ou falando de amores perdidos?
Se eles encalham nas minhas prateleiras aqui por detrás de mim.
Por que me tornei um cronista do cotidiano, um saudosista que não consigo me desvencilhar do passado? Sempre lembrado quando olho pela janela e vejo aquela rua onde passei minha infância e sempre volto a ela ao cair das tardes.
Ontem, nove desse mês de julho, depois de comer qualquer coisa no meu apartamento.
Tomamos rumo na Fernão Dias à linda capital do nosso estado.
Sinto-me ainda capaz de dirigir embora tenha predileção em guiar minhas próprias pernas andarilhas.
Em três horas inexatas ali chegamos numa tarde gostosa.
Eu no banco do carona e o motorista de nome de um ex jogador da nossa seleção, bem melhor que a atual, o simpático e não tanto loquaz como eu o Amarildo.
A minha intenção era de relançar meus livros, creio que uns cinco, num salão fino de um clube lindo que já frequentei em tempos idos ( Minas Tênis Clube).
A simples efeméride estava marcada para as dezenove horas.
Olhava e reolhava meu relógio ansioso pela chegada dos meus convidados.
Meus colegas de turma da medicina, formados em um mil novecentos e setenta e quatro quase todos foram intimados a comparecer.
Já sabia que um atraso estava previsto.
Gente da capital não prima pela pontualidade como nós do interior.
Meu irmão Fred Ozanam me fez uma agradável surpresa ali dando as caras quase junto de mim.
O tempo mugia veloz.
Deu sete e meia e nada de meus convidados aparecerem.
Os costumeiros frequentadores daquele belo clube lanchavam na lanchonete.
Quase vinte horas foram chegando, ora um outra hora outros e em resumo contei nos dedos mais ou menos dez, nove, nunca fui bom em contagem. Vamos dizer num total de doze?
Tive mais um lançamento igual aos demais. Bem menos pessoas que previa.
Dei autógrafos personalizados de acordo com a cara do comprador.
Fizemos fotografias com os celulares presentes, muitas até.
Voltamos a nossa cidade pela mesma rodovia noite adentro com caixas lotadas de livros que terão o mesmo destino dos antecessores – as prateleiras da estante detrás de onde escrevo.
Agora, nessa manhã ensolarada dessa sexta feira, nem fria ao exagero nem quente ao destempero.
Se me perguntarem se vale a pena e não ter pena ou compaixão de minha simplesinha pessoinha, esse médico escritor que penso ainda ser, lhes responde, tomando emprestado a linda poesia do grande poeta português Fernando Pessoa.
Com certeza vale sim.
O que seria de mim se não tivesse esse dom, ou talento, de amar tanto as palavras escorreitas e escorregadias. E não tivesse a audácia de publicar tantos livros que enfileirados na minha estante quase tapam minha visão aos tantos porta retratos de minha família.
Esses livros meus somam a mais de vinte chegando a quase vinte mais três.
Bem poetou esse Fernando: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quiser passar além do Bojador tem de passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele é que espelhou o céu”.

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