Quantas coisas desconhecia.
Milhares de indagações povoavam-me a cabeça nos tempos de menino e até hoje dúvidas me assediam.
Mal sabia eu, meninote ainda, o que seria de mim no futuro. Meu passado era bem curto já que aos cinco anos, quando me mudei pra aquela rua, pra aquela casa construída por meu pai, meu passado se resumia em raras e curtas lembranças passadas em Boa Esperança e aqui mesmo, recém chegado, na minha meninice peralta ainda não tinha desperto dentro de mim outras interrogações.
Desconhecia, pequenino ainda, já aos mais anos, adolescência despertando em mim o desejo de me juntar a outra pessoinha, meninazinha dita inocente pueril, vendo espinhas brotando em minha face deixando depois de espremidas um botão vermelho qual um botão de rosa de cor rubro. Onde iria passar minhas férias de final de ano. Interrogações novamente me punham a pensar se seria na rocinha de minhas tias avós em Perdões ou na fazenda do meu tio Zito Abreu nas Três Barras aqui pertinho quase na encruzilhada da vizinha Nepomuceno.
Mal sabia euzinho, já mais grandinho, quando minha Lavras deixei de partida a nossa capital.
Já sabedor que a medicina seria meu destino e que antes deveria me preparar melhor. Não que aqui nessa linda cidade não houvesse bons colégios já que Lavras tem o apelido de Cidade dos Ipês e das Escolas. Agora, nesse mês de julho eles começam a florescer a tonalidade roxa já se mostra em todas as partes. Ao chegar a nossa capital de malas as costas ainda firmes não como agora que elas fraquejam quase encurvadas. Por sorte minha não me canso de agradecer ao meu pai, de joelhos postos na terra se preciso for. Aquela graça a mim oferecida de poder morar num amplo apartamento bem no centro de nossa Belo Horizonte pra onde irei nessa tarde na intenção de mostrar aos olhos dos belorizontinos meu derradeiro livro de nome O Canto das Cigarras.
Agora, como médico ainda não aposentado, embora muitos pensem equivocadamente que essa inverdade não se veste de verdade. Não ainda penso saber tudo que me rodeia já que a vida, no meu entender não paramos dentro dela para não aprender mais.
Já se foram cinquenta e um anos desde que me deram um canudo, um diploma bem feito sob a forma de um pergaminho antigo onde podemos ler nossos nomes em ordem alfabética de a a z.
Creio conhecer no abecedário médico quase todas as doenças e seus remédios que tentam a elas curar ou remediar.
Na minha especialidade já fiz o diagnóstico de quando um paciente aqui chega recurvado e de olhos lacrimejantes de dor devido a uma pedrinha que nasceu nos rins e se desloca ureter abaixo a ser expelida pelo canalzinho bem curto até a luz do dia.
Outros especialistas, como os gastroenterologistas, sabem o que fazer com um enfermo que a eles chega dizendo não ter dormido sequer um minuto pelo simples fato de acordar de hora em outra hora na intenção de assentar ao trono e ali ficar até se ver livre das fezes que lhes saem líquidas pelo final do intestino até se solidificarem de vez pra sempre.
Outros doutores da medicina, aqueles que tratam do andar de cima, chamados neurologistas, acostumados a conhecer de cor e saltos altos doenças do sistema nervoso. Como enxaqueca ou cefaléia de causa não conhecida que pode ser uma dor de cabeça comum ou até mesmo uma dor devida a um tumor cerebral que, se tratado a tempo hábil pode ser curado, ou retardar seu crescimento até seu dono ser sepultado junto a ele.
Mas não sabia, e passei a saber isso que lhe conto agora.
Seu Joaquim e sua dona mandona, de nome Joana. Que se casaram contra a vontade há quase um século. No começo tudo eram flores lindas como as que vi ontem depositadas na grama de nosso jardim principal aquelas florzinhas roxas de uma grande árvore de nome Ipê.
Nos primeiros anos de matrimônio era tudo gentileza: “ Joaquinzinho, por favor, passe-me o azeite e o sal grosso para lubrificar a salada, sim meu amor”?
Seu Joaquim até se derretia todinho e a ela respondia falando baixinho: “sim minha amada querida Joaninha. Não somente lhe irei passar o que me pediu como eu mesmo irei temperar sua salada”.
Nesses bons tempos tudo eram flores sem espinhos.
Dona Joana nem se queixava de doenças. Era mais sadia que uma capivara, verdadeira praga que assola e assalta as lavouras.
Já aos muitos anos de casados a relação azedou. De um azedume mais azedo que um queijo deixado de fora da geladeira mofa e faz um mal danado ao pobre incauto que o come.
De curtos anos pra cá dona Joana, que já era mandona ficou ainda pior.
Não suportava a presença do pobrezinho Joaquinzinho. Só de vê-lo dava-lhe um cumichão na barriga e ela tinha de correr pra privada.
O pobre desinfeliz Seu Joaquim não sabia o que seria dormir um soninho bom.
De hora em minutinhos sua dona mandona dona Joana puxava as suas orelhas orelhudas.
Queixando-se de mais de um milhão de macacoas.
Não havia modos de pelo menos atenuar seus queixumes.
Dona Joana passou a ser uma enciclopédia inteirinha de patologias médicas.
Eu, como já disse dantes, tenho uma longa experiência pelas trilhas acidentadas da medicina.
Já passei por cada coisa…
Agora, nessa hora cedo, meu relógio marca seis e trinta e um minutos.
Conhecendo o causo a mim contado pelo mesmo Seu Joaquim da dona dele dona Joana mandona.
Aprendi mais uma…
Sabem qual o nome da doença principal da dona Joana?
Que só de olhar seu infeliz marido, devora ele com seus olhos e passa a desfilar seus incontáveis queixumes?
A sua dor de barriga não é devida a lombrigas.
A sua dor de cabeça não tem motivo de ela perder a cabeça.
A sua dor no peito não é por despeito de ser mais que feia e chata.
Tudo aquilo que o pobre Seu Joaquim me confidenciou e não pediu segredo.
Depreendi que a enfermidade daquela dona mandona tem um só nome feio.
Doença que eu dei o nome, e resumo em uma só palavra: “o nome dela se escreve- Joaquim”…