Aqui me encontro

Anos antes, ainda menino criança sorrindo, quando meus pais me procuravam em toda casa, e não me encontravam. Eu me escondia debaixo da pia da cozinha. Por vezes no banheiro assentado ao trono embora não tenha sangue azul escorrendo em minhas veias ou artérias. Ou até mesmo no quintal, dentro da horta de couve que minha mãezinha cuidava com todo capricho. Ainda me lembro de quando numa tarde quente e ensolarada como essa, nesse mesmo mês de julho entrante. Quando abri o portão de tela feito por meu avozinho e entrei apressado como sempre fui e ainda sou. Um serelepe coelhinho orelhudo lá estava faminto devorando todinho um lindo canteiro de cenouras.
E eu não me deixava encontrar pelos meus amiguinhos da minha rua quando brincávamos de pique esconde. E quando era encontrado eu descoberto passava a ser o procurador. Num troca troca que me fazia chorar de rir.
Agora, deixando a fase adulta anos atrás. A juventude então séculos antes.
Me procuro e quase nunca me acho.
Embora pensem que não mais sou médico. Entendam médico já aposentado.
Se me procuram aqui na minha oficina de trabalho sempre acabam encontrando um ou outro de mim.
Das cinco da madrugada, três horas adiante, sou escritor. Como queria meu sábio revisor professor Russi ele me chamava de descritor.
Sou um cadinho mistura de tudo isso: médico urologista embora a nova geração não me conheça. Aqui chegado em um mil novecentos e setenta e sete sendo o pioneiro nessa região. Um doutor sem titulação devida, pois não fiz mestrado nem doutorado. Há vinte e seis anos tomei mais gosto pelas palavras enfileirando letras sendo nomeado cronista romancista. Sem reconhecimento nem sendo premiado em nenhum concurso literário aqui ou no exterior. Meus mais de vinte e tantos livros, somam-se dentro deles mais de vinte mil crônicas e seis romances. Se não saio vendendo, se deixá-los órfãos numa casa livreira eles não saem das prateleiras e continuam entulhando essa estante atrás de mim.
Aqui, onde cheguei nessa hora, nessa linda sala ampla tendo um grande aquário do meu lado.
Nesse meu consultório me encontro. Perco-me dentro desse meu computador e noutro notebook preto a minha frente. Entre minhas incontáveis crônicas e me torno um romancista.
Aqui me acho dentro desse meu refúgio nesse sétimo andar que tem olhos pra parte do meu passado. Daqui posso ver a minha Costa Pereira e a outra, que nos meus tempos de menino era um cafezal. Hoje essa rua se chama Horácio de Carvalho.
Mas, o lugar onde melhor me encontro comigo mesmo saí de lá agorinha mesmo, na metade desse dia lindo quatro de julho.
Anos me levam a ele.
Contando nos dedos quarenta e um.
O ano certo um mil novecentos e oitenta e cinco. O mês, precisamente não sei.
Oito anos desde que aqui na minha cidade de Lavras cheguei de Madrid. Especialista feito ainda um tanto imaturo na difícil arte de nome Urologia.
Comprei aquela rocinha por uma bagatela de dois carros velhos, uma poupança de cerca de quinze mil reais e o resto ficou fiado.
Foram trintanos pensando que seria fácil tirar leite, uma merreca que mal pagava a ração. Os dinossáuricos retireiros aumentavam ainda mais o prejuízo, um jovem esculápio sem juízo.
Até que, em boa hora deram-me uma brilhante ideia de arrendar meu pedacinho de paraíso antes que ele se tornasse um inferno.
Doze anos se foram e deixaram saudades.
Agora, passado adiante meus vinte e cinco hectares de terra. Duas casas quase em ruínas que quando entro nelas sinto um apertume por dentro tal o abandono.
Um curral caindo aos pedaços onde vacas davam leite a encher baldes.
Pastos sujos carecendo de serem roçados. Árvores centenárias de madeiras nobres como jacarandás, ipês, e a resistente que vi caída pedindo socorro penso ser uma velha amoreira.
E minha casa beira lago represa do Funil, cenário idílico de tirar o sono de pessoas insones, como eu.
Essa sim passei por ela hoje pela manhã.
Que gramados supimpas, que flores que só faltam me falar de beleza.
Que piscina mais limpa. Pena que nesse frio só a ela posso admirar.
E que salão mais bonito, poucas vezes utilizado. Nele posso até vir a morar.
Em outras dependências do meu solar só ali posso me consolar.
Se pudesse, e me permitissem dizer qual o melhor lugar, nesse nosso mundão grandão.
Onde me encontro e me acho.
Por certo seria entre gente simples do lugar.
Nesse meu sertão veredas onde poucas vezes pernoitei.
No meio dos meus amigos fiéis Clo e mesmo o destrambelhado Robson, o pretinho, entre eles dois me sinto a vontade.
Podem dizer que na minha casa beira lago não tenho vizinhos. Ninguém que me aporrinhe.
Ali não me sinto só embora esteja apenas comigo mesmo.
Pena que não possa trazer tudo aquilo na caçamba da minha caminhonete.
Pois, naquele lugar eu me encontro.
Tanto o escritor médico como me chamam Paulo Rodarte.

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