Ontem, subindo a rua, andando como de costume, não me acostumo a andar de carro nesse trânsito enlouquecido dessa linda cidade onde moro e de outras ainda maiores.
Dirigindo minhas pernas não meu carro branco sempre estacionado defronte ao prédio onde moro aqui no centro pertinho da minha oficina de trabalho.
Bem aqui perto e distante do meu destino final ajudei a atravessar a rua fora da faixa de pedestres que o casal ignorava quase sendo atropelados por carros em disparada.
Uma vez na segurança de um passeio. À sombra daquele solão que inundava a terra com seu quentume amarelo da cor douro puro. Puxei prosa com aqueles simpáticos velhinhos.
“Pra onde os senhores estão indo? Cuidado ao atravessar as ruas. Os senhores são de maior idade. De onde são? O que fazem aqui nessa cidade”?
Aquela senhorinha, a mais espertinha e loquaz, foi quem respondeu pelos dois: “somos de uma cidade vizinha de nome Ijaci. Aqui viemos para pagar contas numa loja na rua principal. Vivemos e devemos pagar nossas contas né? E o senhor, que nos ajudou a atravessar a rua, quem é”?
Nesse agradável ponto de nossa prosa o senhorzinho quase não falou e apenas sorriu um sorriso doce.
Apresentei-me através do meu site paulorodarte.com como médico escritor.
A velhinha, bem mais idosa do que eu, arregalou seus olhinhos que pra mim eram verdinhos como os de minha saudosa mãe. Me disse exalando simpatia por todos seus poros envelhecidos.
“Nossa doutor! Que simpático o senhor é, alegre e comunicativo. Eu, nos meus quase noventa e meu amado esposo já chegado aos cem. Nunca vimos um médico agradável como o senhor que para na rua e proseia com a gente. Assim todos os doutores da medicina fossem. Tivemos imenso prazer em te conhecer. Aparece em nossa querida Ijaci. Toma um cafezinho em nossa modesta residência e teremos o maior prazer em te receber”.
Deixei-os caminhar sozinhos a passadas lentas até a tal loja onde pretendem pagar as prestações.
Com esses pensamentos a entrarem em minhas ideias efervescentes como sempre são.
Aquele casal, ele já centenário e ela quase, de braços dados, demonstrando um carinho imenso um pelo outro. Amor na expressão maior da palavra. Uma vez juntos a quase uma vida inteira sem rusgas e pequenas divergências de opinião. Sorrindo sempre mesmo que a tristeza inunde seus corações. São pra mim exemplo maior do que seja envelhecer por fora, cultivando rugas e cãs, naquele andar trôpego em passadas lentas, olhares perdidos num passado que não lhes causa revolta e sim saudades imorredouras. Mas pra mim são pessoinhas envelhecidas sim. Mas que não se curvam à idade, continuam seguindo em frente até o instante final.
Envelhecer. Não existem dúvidas que não escaparemos ao nosso destino de, de crianças, meninos, meninas, passamos pela juventude sem atitude ainda de encararmos a responsabilidade que vem mais tarde. Aí vem a fase pela qual já passei de nome adulta. Quando me ajuntei a outra formando uma coisa linda chamada família. Que pode se desestruturar com o escorrer dos anos, mas ela ainda nos fala mais alto que aquela montanha que um dia tentamos subir. Depois sucede a decrepitude da velhice. Que pode se acompanhar de caduquice ou não. O ficar velho é inevitável e incontestável. Da mesma maneira que a dor se torna inevitável quando topamos nossa canela na quina pontuda de uma mesa posta num local inadequado. No entanto sofrer por essa dorzinha a toa pra mim é coisa de gente frouxa.
Olhando a minha esquerda, aqui pertinho de onde escrevo, vejo um grande aquário de água docinha como um beijinho açurado na minha face deixado abatonzado pela boca de minha amada mãe.
Ao ver aqueles peixinhos coloridos nadando na sua piscina de uso exclusivo não percebo neles qualquer sinal de envelhecimento.
Peixes, sejam aquarianos, sagitarianos ou de outros signos quaisqueres. Não ostentam cabelos brancos, barbas nevadas, rugas ou qualquer tipo de defeitos; se é que podemos chamá-los assim. Andar ou nadar cambaleante, deficiência de audição pois nem sei se peixinhos escutam bem. Nunca os vi usando bengalas ou pince nez nos seus narizinhos. Daí não sei se os tais envelhecem como a gente ou se morrem novinhos ou já bem velhinhos. O fato que comprovei é que peixes de aquário não carecem de caixões um caixinhas para serem enterrados pois os outros que nadam ao seu lado, assim que seus coleguinhas param de respirar e bóiam na superfície de pronto são comidos vivos e não dão despesas nos seus funerais.
Já de alguém ouvi essa assertiva bem sensata e correta. “a velhice não se mostra nos anos, nem nos dias que já vivemos muito menos nas rugas que sulcam nossas faces em idades provectas. Há aqueles que ficam velhos ainda crianças. Outros infelizes envelhecem em plena mocidade. Terceiros se tornam decrépitos antes de terem vivido metade dos seus poucos anos. E gente, como aquele simpático lindo casal. Com os quais me cruzei na rua e evitei que fossem atropelados por carros em movimento aqui pertinho. E, naquela prosa boa que mantivemos na metade do dia de ontem. Aqueles dois sim, ele já mais de cem, ela quase chegando lá sem pressa de chegar.
Pessoinhas como aquele lindo casal, se envelhecem nem sentem o peso dos anos.