Correndo por uma estrada, em anos que lá se vão, cedinho madrugada já desperta, correndo lento, num certo trecho dessa corrida, antes do destino final, vi bem perto um senhor de mais idade que a minha andando lento, titubeante, em passadas trôpegas incertas.
Tive a curiosidade de me achegar a ele. Não sabia a razão, talvez seja devido a ter desperto em mim, por ter olhos inquiridores de ver além dos que os outros enxergam. De ter uma doença no meu entender sem cura de nome sensibilidade. A qual não se descobre em farmácias medicamentos que a tentam conter e muito menos curar
Cara a cabeça com aquele senhor caminhando lento. Por aquela estrada poeirenta antes de receber aquela vestimenta negra de nome asfalto.
Demo-nos as mãos sem nos conhecermos. Ele sim me foi simpático, gentil um fidalgo desses que quase não são vistos nesses tempos de agora. Onde a solicitude, a cordialidade, a lhaneza de trato, são virtudes dinossáuricas encontradas apenas nos museus coisas em extinção no meu entendimento modesto.
Perguntei a ele seu nome. Repeti a indagação seguidas vezes. Ele continuava mudo fingindo-se de surdo.
Olhava com seu olhar mortiço adiante naquela longa estrada.
A mim me pareceu um ser estranho vindo em sua nave espacial de um planeta desconhecido. Seria Marte, Júpiter ou até mesmo oriundo de outra galáxia? Assim pensei de começo até minutos em frente.
Depois de longa espera, nós dois parados a beira da estrada. Quase continuei minha corrida tartaruguenta bem mais lenta que uma tartaruga manquitola.
Aquele simpático senhor soltou sua vozinha fina em tom quase inaudível aos meus ouvidos.
“Me chamo Senhor das Estrelas, meu nome não de batismo dado por mim mesmo. Não vim de outro planeta e apenas sonho viver numa estrela. Olha pra cima, embora ainda não seja noite eu posso ver uma das minhas irmãs sonolentas esfregando as bochechas, abrindo os olhos brilhantes na tentativa de olhar aqui embaixo onde estou eu, saudoso dos meus pais que moram no céu ao lado delas. Se o senhor, de menos idade que a minha, apesar de já bem idoso, me perguntar pra onde vamos eu lhe respondo. Eu vim lá de cima. Acordei em meio as minhas irmãzinhas. Uma delas se chama estrela Dalva a outra deram-lhe o nome de Sírius. A outra pela qual sou mais afeiçoado se chama Canopus. Minha irmã mais novinha, que ainda usa fraldas e chora no céu pensando na sua mãezinha a estrela Antares tem seu nome escrito no seu bercinho de estrelinha Polaris. Se o senhor pensa que estou mentindo e inventado historinhas pra meninos dormir se engana. Olha minha certidão de nascimento. Fui nascido não aqui na terra e sim lá no alto. Acontece que, por um descuido de uma enfermeira estrela da maternidade onde vim de outro mundo não esse onde agora estou. Quando minha mãe a estrela Canopus me pariu eu, bebê, uma estrelinha miudinha envolta em nuvens cinzentas pois naquela noite choveu na madrugada. Despenquei dos braços do meu paizinho, bem me lembro dele meu pai de nome Lua Cheia. Aquela simpática enfermeira da maternidade chamada Estrela Dalva. Que até inspirou uma canção que fala assim: “a estrela Dalva, no céu desponta, e a lua anda tonta, com tamanho esplendor, e as pastorinhas, pra consolo da lua, vão cantando na rua lindos versos de amor”. Se o senhor não acredita olha mais uma vez pro alto. Agora ainda é cedo. Espera a tarde chegar e depois a noite te deixar ver as estrelas. Se não as ver com olhos desnudos usa uma luneta. Se o senhor, mesmo olhando por uma luneta não puder ver as estrelas então olha pra lua. Já conversei com ela e a lua me disse e não pediu segredo que nessa noite de hoje, dois de julho, ela vai se encher de orgulho por ter sido vista pelo senhor médico escritor doutor Paulo Rodarte de Abreu falta o Expedito no seu segundo nome. Ah! Ia me esquecendo. Aos nos encontrarmos aqui, nessa estrada poeirenta. Eu em marcha lenta e o senhor na sua corrida ensandecida e apressada. Parece que seu mundo vai acabar em poucos minutos. E o meu mundão não tão imundo como o seu te olha lá de cima onde as estrelas, o sol, a lua e outros planetas que moram na via láctea nunca vai acabar. A sua pergunta, a me ver aqui pertinho foi mesmo- pra onde vamos? Essa mesmo? E te respondo sem pressa. Já que não sou apressado como o senhor pois, como as estrelas brilham sem querer ofuscar o brilho tanto do sol como da minha tia lua. E tenho toda a eternidade para viver já que estrelas não morrem e ficam iluminando a terra nas noites escuras como se fossem vagalumes que não piscam como eles. Se o senhor doutor, ainda não aposentado de tanto tempo de formado, já que quer saber pra onde vamos minha resposta não te dou agora. Espere um cadinho. O senhor tem apenas setenta e seis aninhos. O senhor já deixou escrito em vários textos de sua autoria que já escolheu a data, o mês e o ano de sua despedida desse seu mundo- o dia vai ser num trinta e um de fevereiro num ano ainda não definido. Aí, nesse dia de luto para aqueles que te amam de verdade. Não para aqueles fingidores que mentem descaradamente. Com certeza o senhor vai saber pra onde vamos. Eu não vou pra lugar nenhum. Já o senhor pode ir pra onde quiser. Quer mesmo saber? Vai pro raio que o parta!”
E num é que cheguei aonde queria e o raio nem me partiu…