Devia ter

Em criancinha ainda, antes de entender as dificuldades da vida, todos percalços que se interporiam em meu caminho, queria e fazia birra, em duas datas próximas, no meu aniversário em sete de dezembro e nas festas natalinas quase o ano fechando os olhos sonolentos.
Chorava antecipando meu sofrer de menino birrento, Só de pensar que poderia ganhar apenas um presente.
Assim que completei meus cinco aninhos, já morando nessa cidade que tenho como minha mãe e não minha madrasta. Nascido em Boa Esperança na esperança de ali não meu mudar.
Mas quem era euzinho, pequenininho até hoje, pra decidir qual seria meu destino?
Devia ter mais comedimento, tanto nos gastos que não eram meus. E sim do meu saudoso pai funcionário de carreira de um banco que tem o nome de nosso país.
Como da mesma forma em não querer ganhar apenas um presente já que como deixei escrito acima meu cumpleanos era bem perto do Natal.
Jovenzinho ainda, já aqui morando e não mais fazendo arte. Estudando naquele colégio cujos dizeres são esses: “a gente sai do Gammon, mas ele não sai da gente”.
Já lucubrando em qual profissão seguir em frente. Já que sou o primogênito dos netos do meu querido avozinho Rodartino Rodarte. Não havendo outro esculápio então na família dos Rodartes. A dos Abreus não era eu o mais longevo já que meu finado primo José Carlos Abreu foi um baita cardiologista e morreu como fazendeiro ao norte de nosso Brasil.
Deveria eu ter estudado mais, ido a menos baladas nas noites enluaradas da linda Belo Horizonte de antão. Ter-me debruçado sobre livros ao revés de cochilar nas mesas de bar a procura da minha cara metade já que a encontrei aqui mesmo, caminhando no rela do jardim.
Quem sabe ter ido a outra cidade como especialista feito nessa difícil área da Urologia onde até hoje me encontro mesmo desencontrando-me e me partindo em dois médico e escritor.
No entanto das entre tantas dúvidas aqui mesmo fiquei e não trocaria essa cidade por outra em qualquer lugar desse nosso mundão.
Agora, nessa hora ainda madrugada, deveria ter mais horas de sono. Mas como tenho medo das noites, na juventude não tinha tanto. Aqui chego sempre a mesma hora costumeira, antes das seis e não depois das sete da manhã.
Nesses meus setenta e seis, dezembro colho mais um aninho e não mais assopro velinhas.
Creio que deveria ser mais paciencioso, mais sossegado, menos intempestivo me achando ser a única bolacha do pacote.
Mas, como sei e não mudo de ideia, que burro velho não muda a marcha.
Embora saiba que devia ter essas incontáveis e incontidas qualidades. Como ainda não me sinto velho nem penso ainda levitar-me ao céu.
Devo e não nego. Pago se eu quiser e quando puder. E, de acordo com o que está escrito no meu sobre Abreu, se eu não pagar nem eu.
E como cantavam os Titãs – “Eu devia ter amado mais, chorado mais, ter visto o sol nascer. Devia ter aceitado mais as pessoas como elas são. Largado mais, complicando menos, trabalhado menos, ter visto mais o sol se por…”
Mas eu agora, prestes a entrar na aurora da minha vida.
Bem sei que deveria ter vivido mais sem pensar no outrora. Deveria ser mais magnânimo, menos possessivo. Devia ter sido um filho mais presente quando minha mãe me chamava para ajudar meu pai, decrépito nos últimos anos, meses antes do seu passamento. Quando minha mãe dava banho nele e ele não tinha forças para se erguer novamente e minha mãe sozinha não podia fazer esse esforço hercúleo já que não tinha ajuda. Sei que deveria largar um cadinho minha lida na medicina e ir depressa a nossa casa a fim de estarmos juntinhos àquela hora de grande precisão no box do chuveiro.
Deveria ter feito mais por todos que de mim se aproximaram. No entanto me afastei por pura pressa. Dizendo-me sem tempo pra ser feliz como agora tendo ser.

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