Quisera ter dito a ele

Qual a dor mais doída que nos faz sentir dentro do peito como se uma punhalada certeira atingisse aqui dentro. Não derramando tanto sangue e sim um choro copioso a verter lágrimas com sabor de sal nascidas dentro dos olhos e despencando até abaixo de nosso nariz fazendo-nos suspirar de tanta dor.
Seria uma espetada em nosso dedo maior, o polegar da mão esquerda ou outro dedo qualquer?
Ou até mesmo uma topada no dedo do pé direito quando de uma corrida longa sem destino sequer?
Ou ainda um chute bem dado na canela. Mesmo que ela esteja protegida por uma caneleira de boa marca. Como aquelas usadas por jogadores endinheirados em plena copa do mundo?
Pensando melhor, pondo neurônios a tiquetaquearem cérebro adentro. Cada unzinho batendo cabecinha um na do outro. Seria por ventura a dor mais sentida que sentimos seria a perda de uma pessoa querida. A qual foi levada ao céu numa data anterior a nossa. Já que a ordem natural das coisas seria um filho dar adeus aos pais e não a ordem inversa?
Pra mim, e pra ela, uma senhora de certa idade. Já deixando a infância e a juventude anos bem antes do hoje e pertinho do amanhã.
Felizmente pra mim essa dor mais doída que todas as outras ainda não aconteceu nos meus setenta e seis anos.
Já perdi meus pais, meus avós já se foram faz tempo, amigos foram tantas perdas que nem me lembro de quantos da Costa Pereira ou de outras ruas já se despediram numa viagem sem volta a um lugar de nome Céu. Ou se existe outro lugar em outro local mais perto ou distante não sei dizer, pois lá ainda não cheguei.
Essa ainda linda mulher, mais bela de quando a conheci na minha juventude passada.
Moradora daquela cidade onde fui diplomado em medicina e anos depois na minha especialidade que até hoje me acompanha aqui na minha Lavras amada.
Quando dela me aproximei, anos depois do agora, hoje a distância e a saudade nos aparta.
Dias antes dela recebi uma mensagem dizendo mais ou menos assim: “a dor mais sentida do mundo é perder um filho. Ainda jovem ainda, sem poder nos vermos ou estar presente junto de mim nas melhores horas e até mesmo nas piores. Não mais poder abraçá-lo, dizer o quanto ainda o amo, mesmo à sua ausência pra mim ainda curta já que ele se despediu da gente indiferente se gostaríamos ou não. Não queria ser criança novamente. Queria apenas voltar ao ano dois mil e vinte(antes de novembro). E parar o tempo para estar novamente ao seu lado meu filho amado. E sentir de novo seus abraços e beijos, suas apertadas em mim e dele escutar mil vezes de sua boca doce: “ mãezinha eu te amo”. Não imagina o que é perder um filho, carrego essa saudade todos os dias. A vida transforma pra gente, a saudade aumenta a cada dia. Você nunca mais é a mesma pessoa. Nos transformamos e seguimos porque é nossa única opção. Os outros filhos também precisam da gente. Assim é a vida, diferente pra cada um de nós. A felicidade você encontra nos mínimos detalhes que a vida nos oferece, às vezes bem perto de nós”.
Aquela mulher que perdeu um dos filhos agora vive de lembranças dele.
Recusa-se a tirar o luto de sua vida embora não tenha o costume de se vestir em preto nas suas vestimentas.
Ela vive dizendo-se um ser que vegeta. Como uma árvore morta prestes a ser feita lenha numa fogueira. Mas conserva-se por inteira embora fatiada em picadinhos vendo, com seus olhos lindos, a vida escorrendo lenta a procura da felicidade perdida quando teve seu amado filho sendo levado ao céu num tempo prematuro. Ainda jovem, quase um menino, como um dia o vi dizendo que adorava pescarias, vendo seu lindo aquário no seu quarto de dormir.
Ela não me disse e eu deixo escrito a seguir.
“Antes que filhos seus se despeçam da vida. Já que a morte não manda recado e não diz quando vai chegar. De repente ela chega, devagar ou apressada na sua carruagem puxada por urubus arautos da morte. Diga e repita aos seus entes queridos em palavras macias e generosas: eu te amo, dou-lhe um abraço agora. Não se esquive de mim, seu pai ou sua mãe. Não deixe de dizer sempre o quanto a amo minha querida mãezinha. Se precisar de mim estarei sempre pronto a acudi-la quando e onde precisar. Não tenha vergonha de andar na rua abraçado ao seu velho pai quando seu andar claudica e sua visão definha. Não se avexe em dizer as pessoas, mesmo desconhecidas. Que se eu puder ajudar o farei de bom grado. Não se curve aos endinheirados e não se torne um capacho onde eles, os ricos, podem limpar as botas”.
Ainda bem que tenho meus dois filhos a meu lado e meus três netinhos me fazendo de cavalo onde eles podem ainda cavalgar. E eu os possa ainda carregar em meu lombo curvado antes que minha coluna se parta em duas e eu parta rumo ao céu onde moram meus pais.
Se porventura de uma desventura um dia não puder dizer a eles deixo escrito agora e em outras horas.
Digo e repito a vocês dois, Stenio e Barbara.
Não deixem de dizer aos meus três netinhos- Theo, Gael e Dom. Digam agora nessa hora sete e nove minutos desse dia último de junho, pois amanhã julho chega: “como a gente, seus pais, amam vocês.”
Dêem a eles um forte abraço bem apertado a conta certa de não afogá-los em suas lágrimas.

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