Bem poetou o grande poeta pequenino Mario Quintana.
“Se for pra esquentar que seja no sol…
Se for pra enganar que seja o estômago…
Se for pra chorar que chore de alegria.
Se for pra mentir que seja a idade…
Se for pra roubar, que se roube um beijo…
Se for pra perder que seja o medo…
Se for pra cair que seja na gandaia…
Se existir guerra que seja de travesseiros…
Se existir fome que seja de amor…
Se for pra ser feliz, eu diria assim: embora não se consiga ser feliz o tempo todo pelo menos esparrame a tal felicidade como flores dos ipês que descem da árvore mãe ainda vivas e viçosas. E não jogue essas florzinhas amarelas, branquinhas são as derradeiras e roxinhas no meio delas num lixão qualquer. E novamente apanhe essas florzinhas umazinha a outra. E lembre-se de você, ainda menino. Quando na escola aprendendo as primeiras letrinhas. Quando olhava no quadro negro de olho na lindeza da professorinha e junto ao a vinha o b, não se desfazia de nenhuma outra letra. No caso das flores dos ipês que se derramam na grama seca do gramado do jardim e você passa do lado. Se tem pressa refreie seu ímpeto. Se não não cometa o senão de ir adiante sem tentar pelo menos colar essas florzinhas ainda respirando o ar puro das madrugadas de novo nos galhos mais altos da grande árvore do ipê. De onde elas vieram. E ofereça pelo menos a elazinhas a chance única de renascerem novamente e caírem ao chão se ajuntando as suas lindas irmãs mortas que um dia seremos nós terra sob terra incorporando-nos a ela sem poder voltarmos à vida”.
Crianças, meninos, meninazinhas, bebês chorões, seres sem sede de maldade.
Gentinhas inocentinhas que ainda não viram nascer a segunda dentição.
Sejam eles ou elazinhas recém natos ou já na primeira infância.
Até mesmo já grandinhas engatinhando na sala sob o olhar atento de sua mãezinha. Fazendo galos cantarem não no galinheiro e sim na sua testinha ancha depois de uma topada na quina da mesa mal colocada onde não deveria estar.
Choronas e birrentas mostrando beicinhos por não serem aceitos na escolinha por não terem ainda idade para se matricularem. Batendo pezinhos de solados novinhos tateando sem saber ainda pra onde irão.
Como me dói por dentro sem ressentimentos maiores a qualquer adulto que seja. Quando eu adentrava sala adentro, ia andando lento até certo momento quando batia minha cabecinha no vidro da linda cristaleira antiga herança da minha saudosa avozinha e ele se partia em cacos. E eu chorava e fazia birra embirrado por ter cometido aquele pra mim minúsculo ato falho. Era posto de castigo sem poder assistir ao desenho desanimado do Pato Donald e do seu aparentado ricaço do Tio Patinhas nadando na sua piscinona lotada de dinheiro graúdo.
Como gostaria de ser criança de novo.
Recém saído do ovo de nome útero de minha adorada mãezinha.
Sem saber ainda qual seria meu futuro nem o presente que iria ganhar no meu primeiro aniversário mal sabia eu que iria ser no dia sete de dezembro derradeiro mês do ano.
Crianças nascem sem maldades. Pena que adquirem esse defeito antes da maior idade.
Elas nem imaginam sequer a gravidade da enfermidade que seus pais acabam de padecer.
Não se molestam se descobrem que pessoas podem ser boas ou mesmo más de verdade já que, como deixei escrito antes, meninos e meninazinhas na escola não aprendem a diferenciar gente ruim das boas o que somente a vivência dos anos vai a elas ensinar.
Gostaria de voltar aos cinco anos. Quando para aquela rua me mudei. Não sozinho, pois era bem novinho. Vim não de jardineira penso que não. Embora não me lembre exatamente qual transporte foi usado naquela viagem de Boa Esperança para essa cidade onde não nasci, mas minha Lavras tenho, não como mãe de sangue e sim mãe de verdade. Pois mãe pra mim é quem cria e não somente aquela que nos pare.
Pena que o tempo não tem compaixão e muito menos paixão pela gente.
A gente nasce criancinha. Crescemos e nos tornamos meninos e outros de sexo feminino.
De meninos impúberes e imberbes percebemos fiozinhos de cabelos nascendo em nossa carequinha e em nossas carinhas lisinhas.
Se eu pudesse, não que o meu dinheiro desse já que o tenho pouquinho.
Ajuntaria moedinhas num porquinho cofrinho. Até que dentro dele não coubesse mais nenhuma pratinha que reluzisse tal e qual uma estrelinha igualzinha a uma vagaluminha brilhosa em seu traseiro piscante.
Olharia pro alto. Numa noite de lua cheia. E pediria ao meu paizinho do céu que me agraciasse com só um pedido. Que seria escrito assim.
“Meu bom paizinho lá de cima. Por misericórdia lhe suplico. Não sou pidão como o senhor me conhece. Um favorzinho somente lhe imploro de joelhos ralados no chão duro de cimento batido. Me deixe pelo menos por algumas poucas horas voltar a ser criança. Horas depois volto a idade onde me encontro. Se me conceder essa graça ser-lhe-ei eternamente agradecido”.
Não sei se meu pedido foi concedido já que agora mesmo me olhei no espelho e ele me disse: “deixa de sonhar seu velho sonhador. Deixa de pensar no antes e viva o agora antes que o amanhã lhe traga más noticias do seu passamento”.