Tenho visto, no jardim de uma velha casa, do lado de cima do prédio onde moro aqui pertinho.
Um jardim, que talvez já tenha sido de uma beleza impar quase chegando ao número par.
Onde uma velha Bougainvillea de cor vermelho carmim tenta entrar nessa casa pela janela quando ela está aberta. Agora, nesses dias frios de inverno ela mostra lindas flores de cor entre o vermelho e lilás. E elas, quando caem ao chão de cor verde da cor da grama que recém foi plantada naquele pequeno jardim, ainda vivas e saudosas de onde caíram, tenho vontade imensa de pegar uma por uma, ir colando pacienciosamente cada uma dessas pétalas caídas naquele gramado de um verdume sem par lá em cima na sua bela planta trepadeira originária da América do Sul. Também conhecida pelos nomes de Primavera, Três Marias e Flor de Papel.
Nesse mesmo gramado esmaecido pela friagem desses dias invernais tenho visto centenas de praguinhas verdinhas crescendo rapidamente tomando conta desse lindo jardim.
São trevinhos de três folhinhas apenas. Se fossem quatro creio teria mais sorte. Tiririquinhas invasoras, capim pé de galinha são touceiras que se espalham velozmente, dente de leão com suas folhas em rosetas e flores amarelas, azedinhas que não são nada doces e outras tantas que praguejam nossos jardins gramados.
Vem de aí o meu desejo, que nesse domingo final de junho, vendo esse jardim que um dia já esparramou encanto até entre os desencantados.
Se ele fosse meu tentaria despraguejá-lo arrancando uma a uma dessas praguinhas com meus dedos. Embora saiba que elas irão recidivar maiores e mais fortes ainda num tempo certo apesar de indefinido.
Mais certo, pensando cá comigo, tentando olhar pro meu próprio umbigo, por que não tentar tirar de dentro de mim essas outras ervas daninhas que nascem, brotam e crescem no meu interior.
Despragar-me-ia, melhor dizendo desapegar-me-ia de sentimentos menores. Tais como a ira, o mau humor que se mostra as pessoas pela cara feia que a elas mostramos os olhos carrancudos.
As inverdades mentirinhas que a gente passa adiante sem sequer pensar nas consequências danosas que podem causar aos outros devido a boataria que passamos adiante.
Despraguejar-me-ei, pensando bem, ao me olhar no espelho, ao qual não tenho a menor estima. E, se perguntar a ele o que ele acha de mim. E se ele responder que a ele não interessa a opinião que ele tem dos outros. Quem sabe eu mesmo mudaria a minha conduta. De me preocupar com a vida alheia e devendo pensar nos meus próprios problemas, mas que não me impedisse de tentar ajudar a quem precisa mais do que eu.
Despraguejar-me-ia feliz da vida repartindo minha felicidade com quem dela necessitasse. Seria mais humano, mais fidalgo, mais parceiro menos ganancioso, procuraria encontrar alegria e amor mesmo se eles se escondessem nalgum recanto perdido ao meu olhar a procura de algo difícil de ser achado.
Tentaria me desapegar de qualquer coisa que foi de grande valor no passado. Vivendo apenas o meu presente sem me desvencilhar da saudade que o tal pretérito me trás.
Tiraria as pragas de dentro de mim sim.
Não cultivaria tiriricas, trevinhos de três folhinhas apenas, ou até mesmo as azedinhas que podem ser docinhas ao paladar de terceiros, no entanto, não pra mim.
Deixaria apenas, nesse jardim magnífico que cresce dentro do meu eu.
Atitudes positivas, intenções nunca nocivas, mau caratismo então fecharia as portas a ele.
Assim meu jardim interior seria colorido com as cores do arco íris.
E ao fim dele encontraria o tão almejado pote cheio de ouro.
Despraguejando-me de tudo aquilo que me faz mal.
E, jamais iria querer mal a outras pessoas mesmo que elas desejem mal a mim mesmo.
Enfim consegui despraguejar-me de quase tudo.
Menos desse gostoso vício de escrever…