Alguém já percebeu a solidão escondida atrás de um sorriso?
E ainda peço emprestado isso de quem não sei a autoria.
“Talvez a pressa tenha inventado uma forma elegante de cegueira. Não aquela que fecha os olhos e sim a que fecha o coração”.
Solidão, no meu entender, muitas vezes não dói tanto como uma espetada no dedo por um espinho pontudo que nos perfura a epiderme deixando na ferida um rastro de sangue rutilante de um vermelho em tom de carne de açougue quando um boi foi abatido de pouco antes de ser fatiado em pedaços a ser consumido numa churrasqueira em brasas acesas próprias a assar carne.
E a cegueira de um olhar morto perdido num lago seco no meio do nada se equivale aquele de uma pobre cadelinha viralatinha embarrigada de pais que nem se preocupam com elazinha.
Já a havia visto antes acompanhando os cães de meu amigo Tom Zé.
Creio não, tenho certeza que ela não tem nome. Quem sabe se eu a nomeasse de Sem Nome seria um nome adequado?
Fica assim. Sem Nome dei a elazinha, nessa manhã de hoje, quando ali cheguei antes de o sol tomar o lugar de uma densa cerração que me empanava o olhar.
Que dia maravilhoso, à beira da represa do Funil, onde tenho uma casa, uma casa no campo onde esperava receber os amigos, para uma boa prosa, quem sabe comer uma bela feijoada feita no fogão a lenha, por quem sabe bem fazer.
Pena que sempre que por ali passo volto na velocidade de um cometa andarilho. Que rabisca o céu e quase não deixa rasto. Num bate volta que não só me incomoda como deixa afogueados meus dois amigos latidores – Clo e Robson, que, se soltos do canil me acompanham serelepes pra onde vou. Mesmo que prometa a eles que na semana seguinte irei ter com eles talvez eles não entendam por não falarem a minha linguagem. Já que cães só entendem a fala da amizade e fidelidade. Coisas que nós, humanos, fingimos ter e pena ser somente fingimento.
Meu filho Stenio, por amar os cães, como eu, não que o ensinasse, um dia me disse e eu com ele concordei: “vira latas também são gente”.
E ainda acresci: “da melhor qualidade, já que nos são fiéis, exigem pouco dos seus donos. Latem e abanam os rabinhos dizendo o quanto amam a gente. Na roça são os melhores guardadores. Dispensam aquelas rações caras. Comem o que lhes dão. E, se outros cães a engravidam, como fizeram com aquela cadelinha a quem dei o nome Sem Nome. ela não tenta, como outras mulheres que embarrigaram sem querer querendo. Já que copularam sem usar preservativo. Numa ou noutra transa ao acaso de um descaso. Ora com um outra hora com quem pagar mais. Uma vez em breve parturiente. Numa sala de parto aos cuidados de uma boa parteira ou um obstetra dedicado. Quando aquela gravidez indesejada não fazem questão de expelir o concepto, dando fim a uma vida que tinha tudo pra ser feliz e não teve sequer a oportunidade.
A tristonha Sem Nome, aquela miúda vira latinha que nunca a vi virando latas. Ela só teve a desdita de se deixar montar por um ou outros cães. Que não querem sequer cuidar de filhos que nem se sabe se de um ou outro.
Elazinha sempre vai atrás dos cachorros, fiéis amigos do meu amigo Tom Zé. Sem exigir de cada um, uma pensão alimentícia ou um salário maternidade.
Em muito breve a Sem Nome vai ser mamãe de novo.
Com aquela barrigona grandona ela se deita ao sol pra se aquecer da friagem das manhãs.
Caladinha, nunca a vi latir, acredito até faminta, a Sem Nome hoje de novo a vi, fiz com ela uma fotografia, duas mais deitadinha na grama molhada ao sol, no meu pomar onde limões grandões e amarelos pude colher no limoeiro e mesmo no chão.
Nessa manhã de hoje, que começou nevoenta bem cinzenta. Cerração baixa logo o sol racha.
Nesse pomar, deitada sonolenta e faminta a quase mamãezinha Sem Nome esperava pacienciosamente os pais de sua ninhada que em breve vai nascer.
E, ao me despedir dela percebi, nos seus olhinhos tristes aquele tristonho sinal de abandono.