“E eu com isso”?

Em plena copa do mundo desse esporte que pra mim já teve seus dias melhores, nos velhos tempos de outros anos, quando morava na linda e não menos bela Belo Horizonte que hoje tem seu horizonte cerceado pela serra do Rola – Moça. Em breve as mineradoras irão ralar tanto essa linda serra que dela irão restar apenas lembranças dos meus verdes anos que de longe eu os enxergo antes que perca a minha não mais acurada visão.
Aos finais de semana, antes que os domingos. Naquelas madrugadas geladas de junho quase julho entrando pela porta da frente da casa desse ano de dois mil e vinte seis.
Permitam uma nova semana pedir passagem para a segunda entrar, mesmo sem ser convidada ela entra, deixando outra sua irmã a tal terça e outros dias de dura lida terminarem com nossas folgas, eu dizia em altos brados: “sextou e sabadou”!
E bendizia os domingos… Anos bem antes, em menino ainda, meninozinho sapeca e bem safadinho, ia à missa das dez que nunca terminava uma hora depois, antes das nove e quarenta e cinco já ia eu às carreiras ao jardim, o mesmo de nome pomposo Praça Doutor Augusto Silva que nem sei quem era, pois já morreu. Movido por essa pecaminosa intenção de não apenas me exercitar caminhando no entorno dessa bela praça e sim para olhar de banda as lindas mocinhas casadoiras que nesse rela rola olhavam não pra e sim para outro rapaz mais capaz de dar a elas vida mais boa que aquela que eu levava.
Anos depois, perdi a conta de quantos são, nas minhas contas daria perfeitamente para lotar um caminhão grandão de uma carga maior que sua enorme caçamba comporta com sua porta aberta. Já dentro da faculdade de Medina, nesses mesmos domingos domingueiros e não tanto faceiros como aquela linda mocinha que eu cantava e não encantava naquela praça, do mesmo jardim da minha Lavras amada.
Quando, no mais novo estádio de nome de nossa Minas no aumentativo Mineirão.
Ia no meu fuscão todo incrementado de rodas de liga leve, bancos forrados de couro purinho, pneus tala larga de cor amarela de burro fugido. A ver nesse Mineirão lotado disputadas partidas entre meu time que foi o Cruzeiro e o segundo epitetado de Galo que não cantava nada e só perdia para meu Cruzeirão.
Agora, nessa hora e em outras tantas, deixei a bola maior e ainda redonda que escorre pelos gramados chutada pelas chuteiras de jogadores endinheirados. Por outrazinha menorzinha de cor amarelinha que é atirada em outro lado da quadra pelas raquetes de tenistas que eu fui, junto ao meu pai, depois deixei a raquete nas mãos de meu filho Stenio e ele a deixou como legado ao seu filho meu neto tenista de nome Gael.
Chega de lero lero e vamos ao causo de hoje agora cedo.
Zé Filisbino, marido ajuntado e não casado com sua dona mandona dona Manuela.
Naquela madrugada fria, não se via vivalma nem alma morta na sua rocinha mais prejuizenta que a minha.
Zé Filisbino acordou sem abrir os olhos.
Era mês de junho quase ao final.
Abriu a janela, na pia do banheiro enxotou as remelas dos seus olhos claros. Assoou seu narigão. Tossiu aquela tosse de cachorro resfriado. Assentou na privada privativa de seu uso já que sua dona tinha outro vaso sanitário para deixar sua bunda confortável já que a dela era grandona.
E, antes que a coruja vesga descesse do cupim depois de tentar passar a noite nas más companhias dos cupinzinhos moradores daquele velho cupim cupincha de um candidato disputado naquelas bandas a pleitear um cargo vitalício na câmara federal.
Seu Zezinho, como ele gostava de ser chamado. Antes de chegar ao curral, naquela madrugada chuviscosa e fria, acabou, antes de acabar a tiração de leite, escorregando na lama grudenta, caiu de costas e quebrou a bacia onde tomava banho frio.
Que sorte não ter sido a sua bacia senão teria de ficar em repouso coisa que não suportava já que era home trabalhador.
Zezinho, depois de tirar leite na munheca usando seus dez dedos, dois deles inválidos e machucados por terem sido ralados na picadeira de cana e capim a dar as vacas.
Antes das nove já estava roçando a pastaria e coçando o saco de tantos carrapatinhos miudinhos ali alojados sem pagar aluguel morando de graça fazendo a desgraça do pobre Zé Filisbino.
As onze, com a barrigona ronronando de fome, deu uma paradinha para tomar um lanchinho modesto. Esse lanchinho era composto de: “dez litros de leite branco. Dez ovos tirados do fiofó de suas galinhas caipiras sob o protesto veemente do seu amante, um galinho garnisé esporudo que se sentia o dono do galinheiro. Duas abóboras gigantes crias de sua horta de couve onde ele ainda plantava jiló, mandioca, beterraba e cenourinhas disputadas pelas coelhinhos da vizinhança”.
Lanchinho na barriga cheia de aquelas coisinhas da sua produção.
Seu Zezinho partiu a remendar as cercas do seu roçado. Ali cortou a mão no arame farpado, e, ao tentar pular a cerca teve sua calça novinha engastalhada na tal e nem era tempo de Natal.
Já era tarde da noite, exausto de tanta trabalheira.
Ao ligar a televisão, coisa que quase nunca fazia, pois dormia junto as galinhas e acordava de acordo com o canto daquele galinho esporudo garnisé.
Sonolento, num cochilo roncador, quase caindo da sua poltrona mais velha que a serra do Cipó.
Sua dona mandona dona Manuela, ao ver o gol do Brasil contra os bebedores de uísque dos melhores do mundo, num chute certeiro do tal Vini Juninho deu um gritinho fanho: “gooool do Brasil”.
Zezinho Filisbino levantou da sua poltrona furada, acordou de vez, abriu seus olhinhos sem entender de onde veio e qual a razão de tanto alarido e disse irritado: “e eu com isso”?
Eu também não sei o por que de tanta porcaria. De tamanha idolatria a esses jogadores que ganham fortunas e não tem tanto trabalho quanto esses heróicos e valorosos Zézinhos Filisbinos.

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