Foi um dia desses que o vi, bem cedo, andando como zumbi pelas ruas.
Era uma pessoa, não sei se bicho ou homem.
Vestido em andrajos, andar titubeante mal se equilibrando naquelas duas coisas que me pareceram pernas. E sim muletas nas quais ele se escorava para não cair de tão bêbado que se mostrava no seu hálito fétido de cachaça das ruins.
Aquilo, que em tempos idos poderia ser um homem, acabou perdendo a cidadania e a família por motivos distintos, entre eles a desilusão com sua vida desregrada. Por ser avesso ao trabalho e viver de bar em bar tomando qualquer tipo de bebida, e, por não mais ter como pagar a noitada acabou tomando álcool que via sendo usado não como pinga e sim como produto de higiene e limpeza pelas camareiras de um hotelzinho de quinta categoria onde se hospedava ao ser expulso de casa por justa causa.
Armando, segundo descobri ser sua identidade naquela noite madrugada entre seus parcos pertences, pela sua fotografia que apareceu na sua carteira de identidade até que era bem apessoado na mocidade.
Já foi de tudo um nada. Por trapacear nas cartas, quando era crupiê num cassino clandestino. Que funcionava às expensas da lei. Quando ali chegava a fiscalização Armando, que ajuntava sua função com a de porteiro, era o primeiro a dar o alarme e fugia às carreiras da polícia que uma e não apenas uma vez acabou por enjaulá-lo como besta fera que não era, apenas mais um dentre tantos que se dizem cidadãos brasileiros que emigram ao estrangeiro por aqui não encontrar, no seu destino desatinado, uma maneira de ganhar seu ganha pão.
Armando, Armandinho como era chamado quando ainda menino. Até que era uma boa criança até quando deixou a própria infância se perder anos depois.
Foi na escola um aluno, se não dos melhores, não figurava entre os piores.
A sua matéria predileta era a lida com números. Fazia contas sem usar calculadora já que sua cabecinha era recheada de numerais e dela escapavam as palavras.
Consorciou-se, apaixonado que foi, por uma mocinha que pensava ser sua Amélia a mulher de verdade. Mas aquela Amelinha deveras nada queria com Armandinho, e sim pensava que elezinho era um sujeitinho abonado que lhe daria vida boa.
Ledo engano se mostrou mais tarde.
Ainda melhor que dessa união não vieram filhos e melhor ainda netos.
Aquele casamento equivocado durou menos que a florada dos ipês.
Armando, de repente se viu no olho zarolho da rua sem bem enxergar a luz do dia ou as trevas da noite.
Como não tinha emprego fixo nem mambembe, fazia bicos para matar a fome. Era em idade jovem flanelinha limpador de pára-brisas de carros quando a luz dos semáforos ziguezagueava piscante entre o vermelho indo ao verde. O bico de manobrista pouco durou por não ter carteira de motorista e era um barbeiro dos piores.
Aos quarenta, por não mais ter casa onde morar, nem teto onde se abrigar, morava aqui o acolá, dormindo um soninho leve debaixo de um viaduto ou abaixo de uma marquise no centro da cidade.
Aos cinquenta sua vida se já era ruim tornou-se léguas ainda piores.
Aos quase sessenta enveredou-se pelo caminho não certo e nem ereto das drogas.
Dantes, em tempos vencidos, Armando já havia experimentado um baseado.
Como não sabia tragar aquela fumacinha não lhe chegou nem perto dos seus pulmões.
Quando o vi perambulando sem rumo pelas ruas o pobre, que me pareceu alguma coisa que não era homem e sim cão sarnento nem rabugento manquitola e faminto a procura de sacos de lixo onde, com seus dentes afiados pudesse cavoucar e dali tirar sua primeira e única refeição. Um ossinho descarnado, uma pitadinha de carne que sobrou do prato de uma pessoa endinheirada. Aquilo que me pareceu ter sido um dia passado distante uma pessoa, agora não passa de um cão morto deitado num passeio sem nenhum asseio numa rua movimentada onde cidadãos apressados nem olham pra ele, sem nenhuma compaixão ou desejo de de novo ver aquele infeliz cachorro morto ser devolvido à vida boa que um dia, quando filhote pensou ter um destino melhor uma vez adulto envelhecido.
Muitas pessoas morrem ainda em vida.
Essas pessoas mortas em vida ainda respiram, mas não sentem o ar puro entrando em suas narinas.
São como o pobre infeliz Armando, o que restou dele, um morto vivo como tantos outros que são vistos pelas ruas sem eira nem beira.
Sem tetos, seres que perderam a cidadania meros zumbis perambulantes. Com seus olhos gigantes perdidos sem olhar pra nada a não ser para o vazio ocado, opaco e sim brilho.
A gente, pessoas felizes como tento ser, nascidos em lares bem estruturados, de pais amantíssimos deixando nossos genes a outros ainda melhores. Espero não nos tornarmos mortos vivos como aquele que deve ter sido uma pessoa normal, cujo nome se escreve Armando.