O vendedor de sorrisos

Nas minhas andanças costumeiras, usando as pernas e os pés que não se mostram cansados e nem desanimados de tantas carreiras pela vida. Pisando passeios, caminhando apressado pela rua quando nossas vias de pedestres encontram-se atulhadas de gente muitos sem educação. Que param no meio de nossas calçadas estreitas que não permitem a passagem mais de um ou nenhum. Em prosas intermináveis comentando bobagens que só a elas dizem respeito e não respeitam os demais transeuntes. Entre os quais me incluo.
Foi no dia de ontem, como poderia ser num amanhã adormecido ou num dia perdido nas lembranças. Subindo ou descendo nossa rua principal. Diz, quem mora aqui na minha e de outros lavrenses que amam e não querem se mudar de aqui senão para a derradeira morada que costumo chamar de campo santo e não cemitério. No mesmo idioma incluo e faço uma paródia, não sei se a palavra é essa – paródia. Ou outra qualquer de mesma sinonímia.
Quando nós lavreanos dizemos, no caso de termos estudado no Gammon: “ a gente pode ter saído do Gammon mas ele não sai de dentro da gente”.
No mesmo refrão insiro: “a gente pode se mudar de Lavras, mas essa nossa cidade acaba se mudando junto com a gente ou a levamos no coração”.
Nessa minha caminhança de ontem, mais uma palavra novinha inventei. Dentre as tantas que já criei.
Subindo ou despencando rua abaixo, olhando o entorno com meus olhos observadores.
Passeando minhas olheiras no interior das lojas. Vi-as vazias de compradores e recheadas de mercadorias a serem desovadas.
Atribuí a falta de gente comprando ou apenas pescoçando preços. Pra mim um dos motivos talvez fosse final de mês ou no caso do dinheiro ter acabado antes de começar mal chegando a grana à primeira semana quando o pai de família disse contrafeito aos filhos: “meninos sosseguem! Vou poder comprar o material escolar somente em dezembro do ano que vem. Meu ridículo soldo terminou agorinha. O que restou no meu bolso furado são apenas umas moedinhas minúsculas e nada mais nada menos zero”.
Deveras, espero que a prima Vera volte logo de viagem antes que esse friorento inverno me faça morrer tiritando de frio.
Vender é uma arte. Intimar a pessoas assalariadas, ou mais endinheiradas a meter a mão no próprio bolso, nos bolsos alheios políticos são mestres nessa arte de nome roubalheira. Nesses tempos difíceis mais bicudos que tucanos os têm. Pra mim se torna uma missão impossível de vê-la conclusa.
Ai que saudades eu tenho da minha infância perdida e nunca mais encontrada por mais que a procure. Daqueles idos anos de quando ia ao circo entrando por baixo daquela lona furada que, quando chovia era uma correlança desembestada. Cada um tentando se abrigar debaixo daquelas tábuas onde a gente colocava nossas bundinhas magras.
E como eu ria das palhaçadas daquele palhaço que sorria com sua dentição imperfeita, com seus dentes faltosos na parte de cima de sua boca desdentada. O qual sorria por fora e chorava por dentro por ter deixado seu filhinho mais novinho enfermo na sua casa alugada e não podia tê-lo levado ao hospital por não ter dinheiro nem plano de saúde que custeasse as despesas com o tratamento daquela pessoinha inocente que veio conhecer a vida dura que seu pai levava. Vestido por fora com uma alegre fantasia e por dentro vestindo toda a amargura de suas desilusões.
Comia pipoca com sabor de coisa boa. Já que meus pais não estavam junto comigo acabava ajuntando uns parcos amiguinhos da minha rua onde morava, aqui pertinho, hoje muito mudada que ainda leva o nome de Costa Pereira. Mas se eu pudesse, e meu dinheiro desse, mudaria seu nome, se outros moradores permitissem, pra rua dos Rodartes e dos poucos Abreus como meu pai era chamado no seu derradeiro sobre.
Pena que os circos de picadeiro e palhaços sorridentes acabaram pra mim perdendo a graça caindo em desgraça.
Já não se vêem espetáculos circenses como os de antigamente. Minto se digo inverdades.
Nos poucos circos de agora não mais se vêem animais. Elefantes, aliás, suas fêmeas, macacos saltitantes pululantes e não ululantes, leões domesticados a poder de chicotadas cruéis de seus domadores, as pobres zebras listadas acabaram desempregadas perdendo suas listas zebradas, e a gente, pensando ser meninos ainda, tentando entrar por debaixo daquelas lonas furadas derretíamos em lágrimas, como aquele palhacinho menino que fazia palhaçadinhas chorando de fome e dor de barriga.
Nos dias de hoje, não mais menino, embora não me sinta velho como um traste inútil a ser jogado no lixo.
Ainda não aposentado embora tenha idade pra me manter de nádegas placidamente assentadas a um banco de uma praça qualquer.
Nas minhas andanças citadinas, batendo pernas sem ferir a ninguém. Cumprimentando os passantes com perguntas a muitos descabidas como essa: “quantos anus você tem? Quando deveria dizer quantos anos o senhor tem? O senhor conhece um bom urologista nessa minha cidade com quem possa me consultar para ver como anda a saúde da minha próstata”? Caso a pessoa diga que não conhece, já que ela não mora aqui e sim acolá. Logo mostro meu site no celular paulorodarte.com. E essa pessoa, ao me identificar como o tal, ri das minhas palhaçadas como se eu fosse aquele mesmo de um velho circo de lonas furadas onde eu entrava por baixo sem pagar entrada.
Dói-me por dentro ver, nas minhas caminhadas rotineiras, pelas ruas da minha cidade, não só minha como de vocês lavrenses e visitantes.
Lojas e vendedores de pé, a espera de fregueses que raramente aparecem e desaparecem numa fração de segundos. Sem levar nada daquele estabelecimento vazio de gente e lotado de mercadorias.
Passeio pelas ruas tentando me tornar um alegre vendedor de sorrisos…

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