Naquele final de junho, comecinho de inverno, o frio ainda não teve audácia de mostrar sua carinha gelada. Vestido na sua camisolinha aflanelada, nem fria ao exagero nem quente ao destempero. Seu Custódio, marido feliz da dona Hilda, um amor de pessoa pródiga em fazer carinho e cuidar bem do seu mozão. Ainda andava ereto com sua coluna rija, de pés descalços dizendo alto a quem quisesse ouvir: “olhem pra mim com olhos se quiserem ver a realidade nua e crua desses tempos ruins que atravessamos. Pros meus olhos tanto faz enxergarem no clarume dos dias ou noutros em que a escuridão impera. Nunca fiz cara feia ao trabalho pesado. Mas não atirem acima dos meus costados culpa maior que não tenho. Minha coluna aguenta o tranco e não se curva às intempéries nem as trovoadas que riscam o céu com seus raios brilhantes. Hoje, nos meus mais de setenta, quase beirando outros entas, ando sempre a pé e corro quando correm atrás de mim. Se me curvo e meus costados obedecem ao mando que mal que faz manter-me recurvado, olhando a terra pertinho já que meus olhos enxergadores situam-se bem próximo ao chão. E basta de divagação! Tenho de ir trabalhar, buscar meu sustento pra que minha querida Hilda não passe necessidades já que somos só nos dois vivendo nessa rocinha que pra nós assemelha-se a um paraíso descoberto nesse mundão pervertido”.
Nunca vi aquele senhor educado, honesto, trabalhador, cujo único defeito, se o tinha, era ser bom demais e viver sossegado no seu pedaço de pasto limpo cercado de boas amizades. As ruins ele tentava fazer delas pessoas melhores e dizia sempre com sua voz tranquila e bem postada: “cada um é cada um. Desde que o mundo nasceu, não estava aqui pra fazer o parto desse nosso mundão em que muitos choram e outros riem mostrando sua dentição perfeita, desde já, se não consigo dar um jeito em mim mesmo como fazer para endireitar a tortuosidade de nosso planeta?”
Pra mim e pros entendidos não existe pessoinha mais sábia que meu conhecido Seu Custódio. Eu mesmo custei a acreditar assim que nele meti os olhos.
Ele de tudo sabia sem sequer consultar fontes confiáveis e mais sabidas que ele próprio.
Por ter nascido, não desiludido por ter nascido ali e não em outro lugar. Desde cedinho acompanhando seu pai na lida diuturna com o gado. Sabia e ensinava a quem quisesse aprender a razão de o leite sair branquinho e não escurinho de uma vaca negra como anu preto afogado num balde de piche.
E durante sua vida quase inteirinha procurava se inteirar de todos os detalhes inerentes à vida no campo.
Aprendeu bem cedo a conhecer o por que de tantos porqueres.
Se a ele perguntassem se quando a égua passa a aceitar a monta do cavalo inteiro o que ela faz? Pisca os olhos ou a vagina já umedecida pronta a se encher do esperma do garanhao?
Se a ele indagarem qual a melhor época de semear sementes de milho na terra previamente adubada, arada e gradeada depois de nela esparramar produtos que ajudam a fertilizar a tal.
Qual a resposta que esse Custódio sabichão iria dar sem nada cobrar: “ah! Acorda cedinho, lava seu rostinho n’água fria da mina. Come o que está sobre a trempe ainda quente da noite de ontem com um cafezinho requentado que minha amada Hilda fez com capricho. Se pra você tem tempo ruim pra mim todos são ótimos. Não fuja do serviço. Faça tudo com capricho. Se tem de foiçar a pastaria usa a foice se não foi-se o tempo e você, ao passar do mesmo tempo e a velhice te convidar a entrar em você, não será mais capaz de fazer o que faz hoje”.
Não sei se a reposta dada pelo Custódio da dona Hilda te agradou e te pôs a par dessa sua dúvida atroz.
Mas bem que ele tentou…
Foram-se os anos cercados de desaforados dias e meses.
Esse nosso mundo, cada vez mais imundo, cercando-nos de podriqueiras e mais besteiras a encherem-nos as ideias de coisas cada vez piores.
Guerras entre países limítrofes enche-nos de vergonha.
Balas perdidas encontravam o peito de criancinhas inocentes antecipando-lhes a existência.
Roubos, assaltos a mãos armadas pipocam por ai e por aqui sem respeitar cidades grandes ou menores.
Urros ensandecidos eram ouvidos na contramão do sossego em que deveriam viver cidadãos de bem.
Foi numa manhã como essa, ensolarada, festiva e risonha em plena copa do mundo de futebol que me encontrei com o Custódio da sua dona na sua faina costumeira.
Ele não andava ereto com sua coluna na posição certa, ombros pra cima e cabeça erguida altaneira. Mesmo assim, olhando pro chão, na sua terra macia previamente preparada para o plantio.
Ao vê-lo naquela posição pra mim estranha, recurvado rumo ao chão, de olhar não pro alto e sim a ver a terra sem poder ver o que vinha pela frente.
A ele perguntei com o coração cheinho de compaixão e tristeza.
“ Custódio, sempre o vi de cabeça erguida caminhando adiante, ereto com uma palmeira que não se curva à terra onde está fincada. Agora você olha pra baixo, cabisbaixo, como sua coluna deve estar sofrendo. Não se sentes mal”?
Ele me olhou ainda cabisbaixo num olhar pra mim quase demente e me disse tristemente: “olha meu amigo. hoje estou assim e penso que vou continuar desse jeito desajeitado enquanto a vida pulsar dentro de mim. No entanto, tendo de ver tanta coisa ruim acontecer nesse mundo em que sobrevivemos de teimosos. Andando desse jeito, não mais ereto, olhando pro chão sem ver o que se passa adiante dos meus olhos. Quem sabe seria melhor assim…”
Concordo com os sábios dizeres daquele homem bom quando ele disse ser melhor assim…