Nesse sábado que deixou lembranças, não dos bons tempos da minha infância e sim de dois dias atrás.
Passei bons momentos na casa da minha filha, fazendo coisa que não me atrai e nem me sinto atraído por assim proceder, tomando o manche do seu carro, dirigindo abestalhado por um entroncamento difícil de ser transposto já que em horas de pico tem muito tráfego por ali, bem acompanhado por minha esposa, que palpita me tirando do sério pois não gosto que me puxem as orelhas quando dirijo, não me tenho como roda dura e sim bom no volante como foi nosso ídolo Airton Sena, que saiu de cena prematuramente num acidente que lhe ceifou a vida e fez dele um herói dos poucos que temos a cultuar.
Uma vez na grande sala de visita de televisão ligada, assistindo aos noticiários sempre más companhias. Hoje não se dizem outras coisas senão disputas disputadas na copa do mundo de futebol, ataques russos e do outro lado nessa guerra ensandecida entre a bela Ucrânia e seu país limítrofe. Ataques semelhantes imperdoáveis entre Israel e o infeliz hoje empobrecido vizinho Líbano.
Em meio a tantas notícias nada alvissareiras assentou-se ao meu lado meu netinho mais crescidinho Theo.
Ele achegou-se a mim carinhosamente vendo tudo que se mostrava na TV.
Minutos depois ouvi de sua boquinha sempre faminta essa pergunta: “vô, o que vai ser de nós, meninos ainda, num futuro incerto? Com tantas guerras entre países as quais não vejo motivo. Com tamanha violência entre seres que se dizem humanos. E quando a gente, de crianças seremos jovens, de moços adultos seremos. E um dia vamos ser como o senhor, idoso mesmo que não se sinta um deles”.
Naquela hora mágica não tive resposta a dar ao meu querido Theo. Emudeci, voltei ao meu apartamento pensando na palavra tempo. Dando tempo ao tempo para pensar na resposta que daria ao meu neto.
Desde que comecei esse texto de agora cedo, nesse dia vinte e dois de junho, madrugada ainda começo do inverno. Olhando as horas nesse meu aple watch presente do meu genro pai do Theo. Agora ele assinala cinco e quarenta e três minutos. Comecei a escrever poucos minutos atrás espero terminar em meia hora se tanto.
Sempre dando tempo a ele, o tempo caminhando junto comigo a passos mais velozes, não me dando tempo par a ver as horas. De repente pedi, melhor supliquei ao tempo: “meu caro, por gentileza, vai mais devagar. Não se apresse tanto. Já te vi passar de anos distantes a esse que nos encontramos nesse ano em que estamos dois mil e vinte mais seis. Tenha piedade de mim senhor Tempo. Deixei escrito em maiúsculo a primeira letra do seu nome por pura reverência a sua importância. Se pudesse fazer continência a sua pessoa circunspecta fa-lo-ía sem pensar no tempo que já passou desde minha infância a essa época onde estamos. Tenho o senhor, senhor ancião de nome Tempo, na mais alta consideração. Pra mim não existe gente melhor que você ( não me leve a mal se escrevi você não sua alteza digníssima, como sua excelência merece). Quase não temos mais tempo nos dias de hoje. O senhor, Seu Tempo, manda e desmanda, manda cair chuva se o tempo seca. Da ordens a gente e não podemos ser indiferentes aos seus comandos como chefe, capitão ou general do nosso batalhão quartel onde nos aquartelamos tentando escondermo-nos das desigualdades entre reles soldados e aqueles que comandam nossa tropa. Meu querido, mais uma blasfêmia espero não ter escrito, seria muita imprevidência chamar o senhor de querido senhor Tempo? Mais uma vezinha só, não me leve a mal, grandíssimo senhor Tempo. E como o senhor passa apressado. Posso lhe pedir, por caridade. Refreie seu ímpeto! Não me deixe tão atrás já que não consigo acompanhar sua velocidade de um cometa que comete loucuras só de pensar em perder o amor de sua amada cometinha lindinha.Me perdoa se lhe peço tanto senhor Tempo. Faz um tempão que estou aqui a implorar sua clemência. Ainda não me sinto na demência dos anos. Nem na caduquice do meu querido avozinho quando ele foi ao céu levando levitando com ele a sua filha, minha amada mãe Rute a morar em outro endereço. Não aquele daquela casa a Rua Costa Pereira onde passei meus verdes anos. Senhor augusto de nome Tempo. Quanto tempo já vivi? De cor não sei dizer. Sei que já assoprei tantas velinhas num bolo feito por minha saudosa avozinha dona Belica ou seria outra de nome vó Maria mãe do meu pai? Mais uma vez lhe peço, senhor Tempo, assentado aqui nessa poltrona, defronte ao meu computador. Responda, uma vezinha só, ao meu netinho lourinho Theo. Aquela pergunta que ele me endereçou na sua casa, a frente da televisão: “meu estimado avô. Com tantas coisas ruins que andam acontecendo, não preciso ir longe, basta olhar as notícias veiculadas pela mídia- mortes sem causas conhecidas, falcatruas vistas por todas as partes, matanças sem freio, ataques de um lado a outro entre países que deveriam dar as mãos ao revés de soltar bombas assassinas matando tantos inocentes”.
Naquela hora não tive resposta a dar a ele.
Simplesmente deixei ao senhor Senhor Tempo a incumbência difícil de elucidar ao meu querido Theo a sua indagação que me fez pensar no senhor. Pessoa a qual refuto de bem maior sabedoria que eu em qualquer questão.
O Tempo me pediu mais tempo. Pensou tanto na sua falta de tempo. E eu na falta de capacidade de dar uma resposta adequada ao meu amado neto Theo.
Mais uma vez pedi tempo ao tempo para que eu pudesse consultar uma fonte mais inteligente e confiável que nós dois, o tempo e eu.
Recorri a uma infinidade de fontes, mas, nenhuma delas conseguiu satisfazer tanto a mim e ao senhor Tempo.
Pena que o meu netinho vai ter de descobrir por ele mesmo qual a resposta a tantas indagações.
Só no tempo certo ele as terá…