Coisas de maior precisão

Pras crianças as coisas mais importantes são, quando choronas, manteigas derretidas no sol do meio dia, birrentas, fazendo beicinhos por querer uma coisinha e essa coisa tão desejada não lhe é presenteada e dada de presente a outra criancinha mais necessitada.
No meu caso específico, naquela idade aborrescente, jovenzinho ainda, enjoadinho metido a ser a última bolacha do pacote. Um reles galãnzinho fajuto e nada arguto e deveras nada estudioso. A coisa de maior serventia quando moleque sapeca. Ao me aprontar para uma festa chique, que em verdade era apenas um chiqueiro verdadeiro pardieiro. Se faltasse pra mim aquela calça boca de sino feita em tecido brilhoso, que me fazia pensar ser gostoso e as meninas de antão nem me davam bola. Era um Deus me acuda… Fazia birra e não ia a tal festa. Fechava a porta do meu quartinho, punha no trinco um cadeado de aço blindado. E só voltava as boas com meus paizinhos se da próxima vezinha eles me dessem de presente uma bola quadrada.
“Bola quadrada”? Podem me fazer explicar em palavrinhas levinhas, ou em outras de baixo meretrício, mais uma deuda ( dúvida ) devo a vocês que começaram a ler esse texto que se mostra apenas no começo. Ao revés de baixo meretrício, casa de putas também chamado de lupanar. Ao invés de escrever baixo meretrício deveria deixar escrito baixo calão, ou palavrão.
E bola quadrada? Explico da seguinte maneira. Como sempre fui um perna de pau, um jogador de futebol nada habilidoso. Que ao fazer embaixadinhas era mandado de volta à embaixada do meu país quando no exterior. Por ter levado do meu aeroporto uma muamba proibida aquelas plagas. Quando me arriscava participar de uma pelada num campinho cambeta em qualquer dos lados da minha rocinha. Era tão ruim que ninguém queria jogar no meu time. Mas como eu era o dono da bola e ela, chutada por um amiguinho bom de bola, o tal Ronaldinho que tempos depois foi renomeado de Ronaldo Fenômeno. E essa mesma bola, novinha igualzinha a essa que vai ser adotada como filha nessa copa do mundo. Quando o tal Ronaldinho já gorduchinho enfiou sua chuteira de travas pontudas dando um bico na tal, ela acabou furando. Como não tinha uma segunda essa furada e rasgada continuou a ser a vedete da contenda. E com as horas passando e eu fazendo hora pra ir embora pra casa, essa bola mudou de redonda para a forma de um quadro quadrado.
Uma vez adulto, não ainda adúltero, pulador de cerca sem rasgar minha calça nos fundilhos.
A coisa que tinha pra mim a maior precisão passou a ser outra.
Aos vinte e oito me casei. Deveria ter comprado uma bicicleta, mas nem o tempo me fez concluir que errei. Com o manquitolar dos anos, ao chegar aos muitos anos, arrependido desse ato indevido, acabei comprando uma lambreta linda azul e branca. Com ela fazia a festa levando garotas lindas na garupa. Ainda bem que naqueles tempos idos não exigiam capacete e a gente podia andar de moto ou lambreta sem vermos nossos fartos cabelos serem levados pelo vento. A minha maior precisão quando adulto feito e de casamento marcado era comprar uma aliança de ouro purinho e enfiar ela no dedo, o meu anular da mão esquerda e a dela o mesmo dedo só que na mão dela. E num é que me esqueci de passar numa joalheria e pedir pelo amor de Deus que o dono da tal loja me vendesse a tal fiado pois, no começo da minha profissão mal tinha dinheiro para pagar o aluguel da casinha pequenininha onde morava de favor.
Mas salvou-me naquele quase infausto dia um tio meu. O querido tio Rúbio Rodarte, ainda vivo e bem de saúde, foi quem me deu presente aquele lacinho redondinho de ouro purinho que minha mulher até hoje usa e não abusa de deixar sua aliança perdida dizendo nunca mais querer encontrá-la de novo.
Agora, nessa hora tardia de quatorze e dezesseis minutos, a coisa que meu amigo Tonho, alguns anos a mais que os meus setenta e seis, acredito que ele já quase chega aos cem.
Como médico urologista ainda praticante embora muitos pensem que eu já tenha aposentado meu dedo da mão direita o indicador. Aquele enxerido que toca aquela zona tida proibida pelos que se dizem machões enrustidos e na hora H desmunhecam e se recusam a sair da segurança do seu armário.
Não seria demais orientar a vocês, que já ultrapassaram a serra dos quarenta e cinco ou menos se preferirem desse jeito antes.
Fazer uma visita a gente, especialistas em doenças dos rins, aparelho urinário e genital do homem, não carece ser macho totalmente.
Tonho aqui apareceu do nada, num dia nesse mês de junho mal começado.
Ele tinha várias queixas entre elas dificuldade em verter a urina.
Urinava de cadinho a outro. Um jatinho mixuruca que não ia longe e ainda por cima molhava a ponta da sua botina nova em folha.
Tonho não sabia o que era uma boa noite de sono.
De meia e uma hora, já acordado pelo despertador que era sua mulher dona Rosa.
Tonha tinha de ir à privada assentar ao seu trono e ali ficar mais de uma hora pensado ser rei e sua coroa era feia como urubua naqueles dias negros sem conseguir comer uma vaca morta a uma centena de dias.
O velho Tonho não tinha mais sossego. A sua próstata cada vez mais era uma grande pedra no caminho de sua urina.
E como ele estava sofrendo com essa doença que tem predileção aos idosos acima dos quarenta e raramente menos.
A sua consulta estendeu-se por duas intermináveis horas. Eu, tentando segurar minha vontade de urinar mal me mantinha na minha poltrona.
Ao final, Tonho pediu um tempinho, me perguntou onde era o banheiro. Já com a cueca ensopada não deu tempo de assentar-se ao vaso que nem era de planta nenhuma.
E terminou sua confissão dizendo isso sem que eu precisasse lhe perguntar mais nada.
“Doutor. as coisas de maior precisão pra mim são: um pinico. Uma caixa cheia de fraldas pra e velhos, uma privada onde possa me assentar e pensar na tristeza de ser mais velho com a urina solta, e uma mulher mais novinha e não tão exigente como a minha Rosa que se queixa de tudo, inclusive quando mijo nela”.
Verdade, Tonho tá coberto não só de urina retida como tem como coisas de maior precisão tudo isso. Menos a chatice de sua dona dona Rosa insuportável como as coisas essenciais que ele tem de suportar antes que a terra o engula pra sempre.

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