O golaço do Zé Pitimba

“GOOOOOOLLL, PEGA ESSA RAUL!”
Antes, em tempos que lá se vão, se começar a contar a partir de hoje, dezenove de junho, faltam alguns dias para julho mostrar seus dentes tiritando de menos frio, já que hoje amanheceu de uma friaca intensa, ao deixar o portão do meu prédio aqui pertinho pensei não estar em Lavras em sim num dos pólos, de tanto branco que cobria minha caminhonete pobrezinha que dormia ao relento. Relembrando, quando morava em Belzonte, naqueles anos idos de antigamente. Quando ainda o bom futebol provocava pruridos de contentamento em mim. Hoje nem tanto, acabei perdendo o encanto por esse esporte que atrai multidões mundo afora. Acabei trocando-o por uma bolinha amarelinha de tamainho bem menor que é impulsionada por duas raquetes, uma de cada lado de uma quadra de menor dimensão que aqueles campões gramados onde jogam, vestidos em uniformes cada um de seu time com desenhos coloridos díspares representando nessa copa do mundo seus países.
Voltando ao assunto em baila, como se fosse um lindo bailado, ou balé como algumas meninas preferem dançar empinando os pezinhos fazendo um padedê (termo derivado do francês pás de deux).
Naqueles tempos em que tudo pra mim eram estudos. Quase não conhecia o ócio, palavra que muitos confundem com bócio, papo grande. Em preparação para enfrentar uma fera de nome vestibular bem concorrido para medicina. Ou ainda varando noites indormidas debruçado sobre obesos compêndios num estudar diuturno para tentar entender tanto fisiologia, histologia, e mais tarde entrar propriamente na medicina de boa prática que me acompanha até nos dias de hoje.
Quando, aos finais de semana ia ao Mineirão, aquele baita estádio de futebol dos melhores de nosso país, assistir lá do alto das arquibancadas aqueles espetáculos grandiosos jogaç os entre Atlético e Cruzeiro de quem era torcedor não fanático. De um lado um goleiro de camisa amarela que muitos chamavam de Vanderleia cujo nome se não me engano era Raul Plasmam ou coisa de menos valia.
E o craque Tostão chutava no gol adversário com um passe magistral de outro craque o baixinho e espertinho Dirceu Lopes e dali saía um golaço que merecia uma placa honorífica.
Mas quando o goleiro do outro lado tomava um frango depenado e já cozido a turma ensandecida do galo urrava palavras de baixo calão e a gente ficava calado e deixava o Mineirão quando nosso Cruzeirão perdia fazendo birra e apupando o juiz sem juízo dizendo ser um julgador comprado a peso douro.
Hoje pra mim o futebol ainda tem seu encantamento, pra mim que não mais sou aquele dos velhos tempos. Não tanto como quando vejo o grande jogador de tênis, com um futuro brilhoso pela frente, esse jovenzinho com seus dezenove aninhos tem perdido jogos em torneios mundo afora por vezes na primeira rodada não indo até as quartas ou semifinais. Lucubro que dele esperam demais e o peso da responsabilidade tem pesado muito as suas costas ainda frágeis e incapazes de ganhar sempre nesse esporte praticado entre dois jogadores apenas em partidas intermináveis que podem durar quatro ou mais horas sob um sol escaldante subindo de mais de quarenta graus em certames disputados em quadras gigantescas como as de Roland Garros e as dos não menos disputado Us Open.
Tenho assistido a jogos, não inteiros, dessa copa do mundo.
Torço pelo Brasil embora não considere nosso time a ser vitorioso nesse certame onde times melhores têm mostrado um melhor futebol.
Como deixei escrito dantes, tenho pouca predileção por esse esporte onde usam chuteiras nos pés e deixam o par de tênis descansando quietos numa gaveta qualquer no armário onde famigerados atletas da bola deixam guardados incontáveis roupas de grife; endinheirados que são.
Penso com meus pensamentos que me fazem viajar sem precisar voar. Que atletas fora de forma como Neymares da vida boa que desfrutam não deveriam ser convocados e sim deixados a bailar em baladas acompanhados de belas mulheres tendo cuidado de usar preservativo para evitar mais filhos seus embora ele os possa criar e fazer deles homens de bem.
E que não se deve endeusar bons jogadores e nem fazer deles ícones falsos já que penso não serem eles exemplos a serem seguidos por nossas crianças que se amontoam em salinhas procurando lotar álbuns de figurinhas desses ídolos que pra mim nada ou pouco representam.
Naquela madrugada gelada Zezinho, apelidado de Zé Pitimba, acordou sem ter dormido um bom soninho.
Já era tarde no seu conceito, pois aquelas seis horas da matina já havia passado da hora de terminar a primeira ordenha do dia.
Mesmo assim vestiu seu capote dependurada na beirada da cama, o qual, de tanto usado que era, se o deixasse de pé ele iria andar sozinho.
Dispensou cueca pois, a que usava de véspera deixou como cobertor, dado ao frio, ao seu cãozinho amigão de nome Raulzinho em homenagem ao goleiro da camisa amarela que foi defensor de um time de nome Cruzeiro.
Foi logo ao curral sem sequer tomar seu cafezinho, pois faltava pó. E ainda por cima a sua amada broa de milho foi comida mofada e fria a noite passada sozinha sem acompanhamento nenhum.
Tirou leite da sua vacada usando os dez dedos das duas mãos.
Naquele dia faltou luz na sua rocinha. Os cem litros de leite branquinho azedaram e Zé Pitimba amarou mais um preju grandão.
Como não era tempo de chuva miúda nem de tempestade tempestuosa a seca se mostrava gelada.
Zé sentia-se deveras pitimbado. Azar pra ele era pura sorte. Nadica de nadinha pra ele dava certo. Nem conseguiu encontrar sua certidão de nascimento quando mais carecia delazinha pra poder pedir empréstimo a um banco, não aquele do jardim onde a gente, quando não tempos nada pra fazer conferimos nossas nádegas aquele assento com dois SS e não com um c só.
No banco de nome do nosso país, descarece dizer do Brasil, onde tempos idos e de uma saudade imensa foi gerente meu pai Paulo Abreu.
Zé foi destratado pelo guarda que fazia segurança daquela casa bancária que a muitos pode levar à bancarrota. Por um simplório motivo sem razão de ser.
O pobre desinfeliz Zezinho tentou entrar por aquela porta rodante ao contrario do que era permitido. De tanta tentativa barrada pelo guarda mal encarado acabou quebrando a tal fazendo-a em pedacinhos miudinhos.
Foi imediatamente levado ao xilindró onde passou a pão seco sem água um mês inteirinho.
Apanhou da borduna dura do guarda que guardava a cadeia pensando que era sua não dos presos.
Zé foi solto na tarde de ontem da semana passada que passou e não deixou saudades.
Como ainda tinha umas moedinhas no bolsinho da calça, furada no fiofó, ao passar por uma casa lotérica acabou jogando na loteria cujo prêmio maior era mais de dez milhões.
E num é que Zé Pitimba ganhou o primeiro prêmio, enricou de vez pra sempre e nunca mais empobreceu.
Com aquela enorme grana num embornal surrado de novo entrou naquele mesmo banco, noutra praça, em outro dia e em outra ocasião, passou pelo guarda da segurança, ele mesmo abriu aquela porta que da outra vez foi feita em caquinhos miúdos sendo todo gentileza com o ricaço Zé, que mudou de nome não mais pitimbado e sim para Zé Afortunado.
Comprou uma fazendona grandona. Passou a ser o dono mandachuva do time todo do Cruzeiro mandando o Pedrinho BH pra reserva se despir no vestiário.
No dia seguinte era jogo do Cruzeiro contra o mesmo Atlético Mineiro.
Antes que o juiz apitasse o começo da partida, levantasse a mão direita pro alto.
Zé, agora afortunado dono do time inteiro, entrou em campo, não fazendo campanha pra deputado ou senador, deu o chute inicial do jogo, foi entrando sorrateiramente com a bola no pé direito, indo lépido ao gol do adversário, do lado contrário ao gol do seu time azul e branco, deu um chutaço certeiro ao fundo das redes do outro goleiro que não mais era o da camisa amarela chamado de Vanderleia.
Foi de fato um golaço do não mais Zé Pitimba, agora com nome novo- Zé dono afortunado do meu ex time do coração.

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