E eu que os pensava inimigos

Não sabia, até nessa fria manhã de dezoito de junho, que de uma quase fatal inimizade pudesse unir os corações e fazer deles dois grandes amigos.
Amigos, se os temos guarda-os dentro de um cofre forte e não revele a ninguém o segredo.
No meu caso os tenho bem poucos, não irei citá-los nome por outro para não deixar descontentes aqueles que não constam nessa lista bem curtinha.
Marcelo, aquele metido a cavaleiro que nem sabe ao certo como selar um cavalo. Sujeito de coração enorme, cara de bravo, resmungão e palpiteiro, marido exemplo a ser seguido da dona Rose. Paizão de filhos alguns nem dele são. Que quando o intimo a ir comigo a minha rocinha ele à princípio pensa um cadinho, resmunga que está de agenda lotada pra esse final de semana; em verdade ele não tem nada a fazer a não ser se queixar do desgoverno atual e enaltecer as virtudes daquele ex presidente que reside em prisão domiciliar por pura perseguição de um ministro careca como bola de bilhar. O tal, que quando digo que ele é filho de um vizinho de cerca de nome Nicanor ele fica mais irritado ainda e me manda pra aquele lugar pra onde não vou.
Outro amigão de nome Tião, Sebastião cujo segundo nome é Assis, sempre presente aos meus lançamentos de livros, creio que ele tem toda a minha coleção. Maridão de dona Cida, ilustre figura, ex funcionária da receita federal, eles se dão bem até quando sua esposa amada dorme em outro quarto. Foi ele quem me resgatou exausto depois de uma corrida insana desde Ijaci à Ibituruna, longos cinquenta quilômetros e quase ali cheguei inteiro faltavam apenas alguns metrinhos para receber a bandeirada final.
Seu Jorge, a quem chamo pelo sobrenome de Rifa, quando em verdade é Jorge Riff, aquele velho de raros cabelos brancos e testa proeminente, sempre bem informado sobre tudo em voga. Meu amigo sempre presente na academia do LTC, que ali comparece nem sempre para fazer exercícios e sim para admirar a beleza das mulheres frequentadoras. Nascido no Rio de Janeiro e aqui, nos barrancos do Rio Grande pensa deixar de viver. De convívio disputado nos bancos de nossa linda Praça Augusto Silva. Ele também o tenho como amigo.
Recentemente em minha curta lista de amigos inseri mais um nome.
Conheci aquele sujeitinho que usa uma máscara branca a encobrir seu sorriso no rela da praça em nosso jardim principal. Ex jogador do Cruzeiro, com passagens pelo Clube Atlético Mineiro, hoje aposentado do futebol e como eu metido a escritor de livros infantis. Pessoinha de uma simpatia ímpar e par também. Hoje mesmo, nessa madrugada fria ele me mandou uma mensagem pelo zap. Já comprei um delicioso acarajé de sua amada esposa a Isa Baianinha. O tal petisco em nada perde em gostosura para aqueloutros vendidos nas lindas praias de São Salvador.
Não deixaria de lado, entre os parcos amigos com quem reparto minhas melhores amizades. Aquele sujeito desajeitado, meu amigo Tom Zé, roceiro palrador que cuida do meu Solar na zona rural da bela Ijaci. Um faz tudo e reclama de quase tudo. Quando ele e eu nos falamos pelo celular é um Deus me acode: “doutor Paulo! Sabe aquela coisa que uso para limpar sua piscina? Ontem ela quebrou e a piscina está vazando água limpinha. E tem um sapão nadando nela. Mato ele? Tempero, deixo na geladeira pra fritá-lo no sábado quando o senhor vem aqui para o almoço?”
Meu amigo Tom já me ensejou incontáveis textos. É um dos personagens inclusive do meu romance Rakel na pele de um indiozinho Yanomami que usa seu nome inteiro Tom Zé.
Meu amigo da roça Tom Zé, segundo me disse outro amigo pintor inteligente que emprestou seu nome ao meu cão fiel o Clodoaldo, meu amigo cão fila se chama Clo, é peça fundamental a cuidar da beleza e segurança do meu pedaço de paraíso. Um mal necessário meu amigo Clodoaldo disse.
Outros amigos me perdoem, se não os listei aqui.
Aqueles meninos, amiguinhos de infância da Costa Pereira, a maioria deles ainda são meus amigos no céu.
Aqui pertinho, do meu ladinho direito de onde escrevo, mora um grande aquário de água doce.
Já o tenho a incontáveis anos.
Ele já morou em outra morada aqui na mesma rua quando meu consultório era em uma sala em um endereço bem chegado.
Quem cuida dele é outra amiga minha querida secretária enfermeira Zaninha.
Não existe pessoinha melhor.
Agora cedinho, ao tratar dos meus bichinhos bons nadadores, nesse frio que lá fora nos faz soltar fumaça pela boca, não sei se peixinhos de aquário sentem frio.
Percebi, agorinha mesmo, ao distribuir ração na superfície, os menorzinhos sobem famintos e abocanham os floquinhos que somem um a unzinho depressinha.
Lá em baixo, entre as pedras lodosas do fundo, vi um rabinho pretinho que de começo não identifiquei de quem seria.
Logo a seguir matei a charada. Um dos meus peixinhos, um vermelhinho menor que os demais animaizinhos, um indefeso presa fácil do predador carnívoro que adora carne de peixe crua, o famigerado cascudinho, já bem grandão. São em número de dois. Acreditem se quiserem: “sabe o que aquele peixinho vermelhinho, que quase foi servido cru e frio ao cascudo, estava fazendo? Cobrindo o friorento cascudinho com uma coberta de algas marinhas ( que mentira né, em aquário de água doce não tem algas marinhas).
Até hoje de manhã não sabia que, de uma grande inimizade dois inimigos figadais poderiam se tornar grandes amigos.

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