Bem me lembro deles…
Doutor José Botelho, Geraldinho Vilela, Silvio Menicucci, seu irmão Pedro, Pedro Zica, e, para não me alongar tanto nessa lista de honoráveis médicos que aqui deixaram suas marcas no coração dos lavrenses.
Agora eles exercem a medicina nos céus.
Em BH não posso deixar de citar um urologista de ponta que exercia a sua profissão com lisura e competência no hospital onde fiz minha residência medica nessa difícil e espinhosa especialidade. A urologia mais e mais se moderniza, deixando talhos enormes na região lombar que permanecem apenas como tatuagens resultados de operações que dantes fazia a fim de retirar pedras nascidas dentro dos rins e não tinham nenhuma possibilidade de saírem sem a nossa intervenção oportuna.
Bem me lembro dele, doutor Teófilo, omito o sobre para não trocar carambolas por sacolas.
Um baita urologista que foi preceptor doutor da minha especialidade no hospital do IPSEMG.
Ele de começo fazia operações de grande porte. Sacava tumores renais. Jogava no balde rins apodrecidos por algum motivo. Tratava com sucesso doentes com próstatas enormes. Operava como eu, solitário no centro cirúrgico em distintos nosocômios. Com a ajuda preciosa de um enfermeiro. Não haviam colegas disponíveis a ajudá-lo nos tempos idos. Doutor Teófilo, com seu pince nez dependurado no nariz adunco terminou sua lida fazendo apenas operações de fimose e outras mais simplesinhas.
Somos descartáveis e substituíveis. Como aquele par de luvas que uma vez usada se joga no lixo.
Pacientes adoram médicos novos. Sobretudo aqueles que alardeiam pomposamente seus feitos milagreiros nas redes sociais. Que se expõem à mídia tentando vender uma imagem colorida embora em verdade as suas aparências sejam acinzentadas e de pouco brilho.
Nem tudo que reluz tem a cor douro. Nem todas as jóias são verdadeiras e assim que as compramos comprovarmos serem apenas bijuterias.
Nós, esculápios de mais idade somos fadados ao esquecimento do olvido.
Temos vida longa que na maior parte das vezes gente mal intencionada tem o costume de encurtá-la.
Médicos mais longevos apresentam nos seus consultórios agendas vazias. E as despesas de mantermos a nossa oficina de trabalho são acrescidas em muitas cifras. Isso sem falar da nossa aposentadoria cujo pago se torna ridículo.
Tenho o costume saudável de usar as pernas ao revés das rodas de um carro. Minha caminhonete, parada a semana inteira a frente do meu prédio, quando tento dar a partida ela relincha com um potro bravio. Hoje mesmo ela fungou e pegou no tranco.
Foi um dia desses o acontecido. Rodava minhas pernas pelas ruas da cidade. Uns bons kms acima de onde moro uma pessoinha simpática veio até mim e perguntou: “o senhor ainda é médico”?
A resposta não veio naquela hora. Veio no veio horas depois.
“Em meio expediente meu senhor. Divido-me em duas metades. Parto-me ao meio. Uma delas ainda exerce a medicina. A segunda pensa ser escritor”.
Todo médico, assim penso e repenso.
Quando ficamos velhos sentimo-nos no ocaso do nosso descaso. Todos fazem pouco caso da gente…