Natal não é bem isso

Choveu durante a noite inteira. Uma chuvadonha bem acompanhada por uma ventania dessas de fazer voar telhas colocando famílias inteiras ao desabrigo.

Aninha mal dormiu aquela noite.

Como em natais passados presentes não foram encontrados debaixo daquela arvorezinha tosca feita de um galho seco.  Sem adereços ou bolas coloridas. Sem luzinhas piscantes. Ou qualquer enfeite que pudesse dar realce aquele galhinho que depois seria usado como lenha. Num fogãozinho improvisado feito de alguns blocos de cimento. Na finalidade de cozer arroz. Sem a companhia de feijão ou qualquer tipo de carne. Já que o alimento daquela família em nada se parecia às ceias fartas que eram servidas nas festas de final de ano.

Aninha não era filha única. Umas dezenas de boquinhas famintas disputavam o pão sem manteiga. Sem qualquer biscoito ou panetone que fizesse sorrir aqueles rostinhos inexpressivos.

Elazinha morava numa comunidade. Numa casinha dependurada na subida de um morro agudo. Que quando chovia corriam o risco de serem desalojados. E de repente, durante a madrugada, a tempestade e a ventania fazerem rolar tudo ribanceira abaixo.

Nos natais passados se dava o mesmo. Ceia regada a champanhe de bom pedigree nem em sonho. Brinquedos nem mesmo doados. Os irmãozinhos de Aninha, todos quase da mesma idade, uns vestiam a roupa do mais velho.  Que mal durava até o próximo aniversário.

Filha sem conhecer o pai. Já que a mãe, de vida fácil, ora dormia com um. Na noite seguinte seria mais um. E se embarrigava a cada ano. E não se prevenia pensando que afinal teria alguém do seu lado.

Assim vivia a infeliz meninazinha. Esmolando nos semáforos. Pedindo aqui e acolá. Tentando levar pra casa o que lhe davam.

A felicidade passava à léguas de distância daquela família sofredora. Mal sabiam o que comer no dia seguinte. Viviam a espera de dias melhores. Pena que eles não chegavam nunquinha.

Aquele natal foi à cópia dos outros. Nada de comilanças. Barrigas vazias ronronavam de fome.

Aninha acordou, como de costume, uma hora antes da meia noite. Mal dormiu de cansaço. Passou o dia inteiro vendendo balas num cruzamento da cidade onde morava.

Trouxe pra casa alguns caraminguados. Míseros vinte reais.

Na cidade pessoas dormiam ao relento. Ensopadas dada a chuva que caia sem cessar.

Era um cenário dantesco. Em cada esquina pedintes mendigavam de mãos estendidas. Mas nada de receberem algum trocado.

Mais um natal sem fartura. Na casinha de Aninha seus irmãozinhos acordaram bem cedinho. A espera de um Papai Noel que nunca apareceu por ali.

Por onde andava o bom velhinho? Perguntavam entre si os menininhos.

Aninha, a mais espertinha, sabedora da dura e cruel realidade. Tentava explicar a eles em palavras doces.

“Calma meus queridos. No mais tardar amanhã ele chega. Decerto Papai Noel tem muitos presentes a entregar. Os seus ainda vem. Esperem com paciência. O natal ainda não terminou.”

Mas nada de noutro dia o bom velhinho chegar.

Natal não é só isso.

Mesas fartas. Comércio vendendo a rodo. Árvores enfeitadas cheias de luzes piscantes.  Ruas apinhadas de gente. Noites chuvosas sem causarem problemas aos passantes.

De vez em quando se podem ver pessoinhas de alma pura como Aninha. Tentando levar pra casa sobras daqueles que muito tem.

Lares desestruturados, sem perspectivas de dias melhores. Famílias sem provedores. Crianças ao desabrigo. Sem poder estudar pois lhes falta o básico.

Natal bem que poderia ser diferente. Sem atropelos de final de ano. Sem gente que sofre. Sem pedintes em cada esquina. Sem mágoas e ressentimentos.

Pena que o natal da menina Aninha se passou diferente ao de tanta gente.

Foi quando a encontrei naquela noite chuvosa. Elazinha vendia balas num sinal luminoso. A noite estava feericamente iluminada. Menos seus olhinhos tristes.

Aninha me pediu, quase uma súplica: “por favor. Dê-me de presente uma boneca”. Fomos até uma loja e ela escolheu aquela. Igualzinha a ela. Uma boneca que nomeei Aninha. Que sorriso gostoso recebi delazinha. Até hoje guardo comigo aquele sorriso.

Como seria bom se todos os natais fossem recheados de boas ações. De fraternidade e bem querença. Se nas mesas não faltasse tanto. Se a gente se confraternizasse e pensasse no verdadeiro espírito natalino. Qual seja no dia do nascimento do menino Deus. Que se deixou imolar na cruz com o pensamento voltado em nós.

 

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