Não consigo dizer adeus

Ao ponto final prefiro reticências…

Adeus. Palavra forte. Que tem um significado unissonamente ligado a nunca mais.

Dar um ponto final pra mim não é fácil.

Já deixei escrita uma crônica de tantas linhas e palavras interligadas onde não havia espaço para respirar.

Ela começava e terminava em duas ou três laudas sem interrupções ou pontos finais em cada frase. E quem a leu parece que entendeu o meu recado.

Deixei de continuar a escrever em frases espichadas por demais graças à sábia admoestação de meu erudito revisor. Pessoa na qual deposito meus sinceros encômios não só pela sua sabedoria e respeitabilidade. Como pela aura que emana de sua figura quase centenária. E que cabeça ele tem. Mesmo ao sabor da doença de Parkinson ele, quando o visito, em sua casa, não mais passarinha os olhos em minhas crônicas impressas. E rabisca os meus senões corrigindo-os inserindo ideias novas as velhas minhas.

Nos dias de agora sou eu que lê os meus escritos. E, de quando em vez ele interrompe a minha leitura pachorrenta com um simples levantar de dedo. E fala baixinho: “Paulo. Ao revés de c melhor acedilhar o c. Ou então. Mestre em crases ele me corrige dizendo mais uma vez bem ao pé do ouvido. Não seria melhor crasear o a”?

Ah! Meu caríssimo professor Antônio Russi.  O que seria de nós, seus discípulos. Privados de sua cultura. Sem a sua imorredoura simpatia. Sem a aura de bondade que todos que têm o prazer de conhecê-lo melhor do que eu sabe o quão o senhor é uma pessoa mais que admirável. Pra mim. Mesmo que este planeta lindo seja privado de sua imagem sacrossanta eu nunca diria adeus ao senhor. Meu mestre e professor.

Dizer adeus dá no mesmo que despedir-se pra sempre.

Sem a menor chance de uma revisita. Ou poder novamente olhar em seus olhos. Apertar-lhe as mãos. Ou, quando se trata de uma pessoa amada. Que seja nos tempos ex, ou até mesmo este,  aquele imorredouro amor nunca morrerá. Mesmo que a distância nos impeça de pousar nossos lábios nos seus. De nos deitarmos contigo não para dormir e sim para fazer amor.

Dizer adeus pra sempre dói demais. É como se um punhal de lâminas afiadas nos ensartasse fundo no peito e por esse furo não sangrasse. Apenas e tão somente aumentasse o nosso sofrer.

Ao adeus prefiro até breve.

E que este até breve se abrevie ainda mais.

Dizer adeus faz-me chorar. Se não escorrerem lágrimas olhem fundo nos meus olhos e percebam como eles estão umedecidos. Quase lacrimejantes.

No dia em que tive de dizer adeus a uma pessoa amada ainda me lembro do amargor deste dia funesto. Foi no passamento de meus pais.

Primeiro ele me deixou órfão de sua pessoa respeitabilíssima. Gerente de banco por todos admirado não apenas por sua competência no trato com os números como, da mesma forma, no jeito que ele atendia aos clientes que procuravam a gerência na intenção de fazer um empréstimo ou pedir a ele, Paulo José de Abreu, um conselho sobre negócios.

A seguir, anos depois, foi a vez de dizer adeus a minha mãezinha amada. E como doeu dizer-lhe adeus pra sempre. E como gostaria que esse adeus fossem apenas reticências: “até logo minha querida mãe”.

Já tive de dizer adeuses. Mas não foi fácil.

Disse incontáveis adeuses a cães amigos que morreram ao meu lado. Foram muitos deles. O derradeiro foi um dócil pastor alemão de nome Del Rey. Encontrei-o. Depois de perder a esperança de revê-lo vivo e latindo de felidade quando nos reencontrávamos. Morto, semi enterrado por baixo de um monte de bagaço de cana numa fazenda ao lado da minha rocinha encantada.

Já tive de dizer adeus. Não um até breve. Como gostaria. A aparentados que foram intimados a viver ao lado de Deus pai lá na azulice do céu como hoje se mostra nesta hora temprana.

Disse adeus a amores passados. Mas gostaria que estes adeuses não doessem tanto como doeram no meu âmago.

Confesso-me farto de dizer adeus.

A partir da data de hoje, oito de março. Dia que teve início escuro, mas agora o sol mostrou a amarelice que quase me cega. Por isso tenho de cerrar, entendam abaixar as folhas das persianas.

Não mais irei dizer adeus. Ou no plural- adeuses.

Quando tiver, ou for forçado pelas circunstâncias adversas ao meu desejo, de dizer adeus.

Faço das reticências o meu ponto não final.

Até breve. Na maior brevidade possível nos encontraremos de novo.

Ou cá mesmo. Ou que seja em outro mundo. Tanto ou mais belo que o hoje se mostra.

 

 

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