Hoje acordei pesando ter sonhado comigo mesmo anos antes.
Era eu menino.
Lourinho como aquela fotografia descolorida que repousa na estante por trás de onde escrevo.
Posava todo sorridente creio aos três anos. Um cadinho mais, se tanto. Nos ombros fortes do meu saudoso pai. Minha querida mãezinha. Com o braço esquerdo enlaçando a cintura de meu pai se permitia fotografar ao nosso lado. Atrás parecia um cenário campesino. Não se mostravam vacas muito menos pés de jabuticaba se mostravam carregadinhas de frutinhas negrinhas em ponto de subirmos ao pé e disputá-las com os marimbondos e as maritacas palradeiras como a senhora que porventura fui informado ter feito a fotografia e nada cobrou por ela e fê-la graciosamente por ser a dona da casa onde morávamos quando em Boa Esperança. Antes de meu pai. Funcionário de carreira do Banco do Brasil ser transferido para esta cidade linda chamada de Terra dos Ipês e das Escolas.
Outra fotografia pela qual tenho verdadeira adoração talvez tenha sido ela quem me motivou a escolher a Urologia como especialidade médica. Já que nela eu posava dentro de um galinheiro todo cercado de telas rodeado por galinhas brancas e pintinhos mansinhos amarelinhos que deixaram ser fotografados ao meu ladinho esquerdo. E eu, naqueles verdes anos tinha fimose. Meu piupiuzinho era todo encapado igual ao chamado bico de lamparina. Como nós, urologistas costumamos epitetar os garotos que precisam, com certa premência, serem submetidos a circuncisão. A exemplo cito os recém natos judeus. Creio eu ser esta a razão de eles quase não serem acometidos de câncer de pênis. Uma patologia de natureza maligna que pode ser evitada com a simplesinha operação.
Este garoto cresceu passando as férias de final de ano em duas roças de aparentados.
A primeira, quando ainda adolescente e não aborrecente era na rocinha da Cachoeira que nem cachoeira havia lá. Situada no município de Perdões. Terra dos Alvarengas e sobres nobres de gente boa iguaizinhos a minha mãe Rute. Filha da dona Belica e de meu avô materno Rodartino Rodarte.
E nós, primos amigos de segundo grau, fazíamos fila para tomar banho naquela baciona enorme. E quem nos banhava ora era a tia Mariana ou a clarinha tia Leonor. Ambas solteironas convictas. Filhas da minha bisa dona da fazendinha da Cachoeira a vovó Mariquinha( que me perdoem a minha fraca memória em me lembrar de nomes exatos pois se, o nome de minha bisa não for Mariquinha nunca seria demais dizer ou escrever que por todas elas tenho o maior carinho e admiração).
E a segunda roça, essa era uma fazenda gulosa, onde se tirava leite e colhia café. Aqui pertinho de minha Lavras. Na vizinhança onde nasceu o supermercado Rex do saudoso senhor Júlio Sales. Numa venda a caminho da fazenda das Três Barras, de propriedade do meu tio Zito Abreu. Era pra lá que eu ia todo garboso e metidinho montado numa lustrosa lambreta azul e branca. Onde passava as noites no rabo do fogão a lenha contando causos de assombração e fantasminhas nada camaradas tendo como espectadoras caladas as lindas primas de Varginha. Terra onde um dia apareceu e desapareu o misterioso ET.
Naqueles tempos saudosos de menino eu já gostava, e muito, munido de um bodoque feito com uma forquilha de jabuticabeira por meu tio Júlio. Pai do primo Jarbas ainda bem vivo morando ainda em Perdões. E atado aquela forquilha resistente como cerne de amoreira, um elástico, feito de borracha de câmara de ar furada de pneu de bicicleta já encostada de tão gasta. Aquela que nem de Bike ainda era batizada.
Amava me levantar bem cedo. Ao cacarejar das galinhas e vendo o sol se levantar de seu leito macio feito de nuvens claras não cinzentas como hoje elas parecem despejar água da chuva no decorrer do dia.
E, de café com leite tomado naquela mesona enorme da sala de jantar, bem acompanhado de uma broa de milho recheada com queijo dessorado na hora.
Daquela casinha humílima, que hoje dela só restam memórias e escombros. Saía pela porta dos fundos, e ia, cautelosamente, para não acordar as duas tias antes descritas como anjos que agora moram no céu ao lado de Deus Pai Todo Poderoso.
E com meu bodoque ia até onde moravam as velhas jabuticabeiras, sempre irrigadas por um rego d´água para produzirem frutinhas docinhas como o beijo que sarava todos os machucados dados por minha saudosa mãe Rute.
E procurava, de olhos atentos o canto da rolinha e seus primos os Fogo-apagou. Aves aparentadas às rolinhas. As quais eram o alvo de minha mira com o velho estilingue que o tempo levou em suas asas avoadoras.
E, com a pedrinha não preciosa que retirava do mesmo corguinho cujas águas serelepes tocavam um velho carneiro. Não aquele chifrudinho lanudo. E sim uma bomba que leva água de mina a um reservatório que geralmente fica em riba da casa. E com o mesmo líquido precioso minhas tias avós cozinhavam e nos davam banho naquela enorme bacia de lata esmaltada. Que hoje deve ter sido comprada por algum colecionador de antiguidades a um preço de banana prata ou caturra.
E eu, mais uma vez sozinho, ao alvorecer da madrugada, com meu estilingue estilingava e não acertava o peito gordinho das rolinhas mansinhas que no galho da jabuticabeira faziam seus ninhos.
Mas, quando dava certo a minha mira, e a rolinha caía do galho meio zonza, eu a ela salvava da morte certa e a recolocava no mesmo galho fino onde ela escondia seus filhotinhos ainda por emplumarem.
Pena que aquele menino que caçava rolinhas cresceu, um cadiquinho e envelheceu.
Um dia ainda voltarei a ser menino. Já que estou desenvelhecendo. Já que descobri um relógio que anda pra trás.
Sonhar é preciso. Pena que, ao acordarmos a gente se depara com a triste realidade. Estamos a caminho célere do derradeiro suspiro. Que pena que esse suspiro não seja tão doce como aquele feito com açúcar e clara de ovo.