Muitas das vezes atribuem a nós, médicos, a culpa pelo mau atendimento na saúde pública em nosso amado Brasil.
Tive, durante longos janeiros, poder-se-ia dizer fevereiros, marços e aí por diante, a experiência ora malograda, poucas vezes reconfortante, de atender em unidades de saúde pertencentes a coisa pública, dir-se-ia para abreviar SUS. E, durante aquelas horas passageiras, pois deveria me deslocar a outro trabalho para compensar os irrisórios ganhos. Tinha de engolir à seco, sem me engasgar, os maus tratos e palavras ofensivas muitas vezes proferidas motivadas pelos pacientes aflitos que agendaram a consulta tempos antes. Mas tinham de enfrentar filas enormes que dobravam quarteirões. E, uma vez dentro de minha salinha acanhada, fazendo um calor como hoje acontece, ou durante o período chuvoso vendo goteiras caírem pelo telhado carecendo de reparos. Depois de um exame sucinto. Soberbamente na área da Urologia eu tinha de dar o diagnóstico de uma patologia cirúrgica. E não podia realizá-la eu mesmo. Nem que desejasse. Pois naquelas unidades de saúde faltava de tudo. Menos o respeito e calor humano sobretudo pelas minhas colegas de trabalho – enfermeiras tituladas ou simplesmente assistentes ditas técnicas de enfermagem. Serviçais da faxina ou motoristas de ambulância que sempre apressados e de sirenes ligadas em seus trajetos rumo aos hospitais.
E, se havia indicação de operar uma simples fimose, pelo SUS não havia como. E pagando o preço cobrado em caráter particular estava além de suas posses.
Eliminar uma grande pedra nos rins ou ureteres uma dificuldade enorme. E o infeliz paciente, com a sua carteirinha do SUS, padecia com aquela dor intensa. A espera da autorização que se fazia premente. E, depois de meses ou anos de paciência aquele mesmo cálculo renal encravado punha a perder esse órgão de suma importância a vida humana. Ainda bem que temos dois rins. E, na falta de um deles o restante assume o papel de dois.
Não digo ainda bem que esteja aposentado do trabalho em unidades de saúde pública pois confesso sentir saudade daquelas carinhas que ali apareciam a procura de uma receita de um fármaco para ajudá-los a dormir ou até mesmo domar-lhes a ansiedade ou controlar-lhes a depressão.
E, depois de anos intermináveis de labuta diuturna naqueles postinhos simplesinhos. Se alguém me para nas ruas dizendo sentir a minha ausência. E dizem que eu era bom naqueles breves momentos ali passados. Eu a eles digo: “não me joguem aos ombros culpa maior que não temos. Nós, médicos, lotados nos ambulatórios em plantões que varam noites e se entendem dias claros ou cinzentos. Não temos culpa pelas falhas do sistema. A saúde deveria ser um direito de todos em qualquer nação. Mas na América lá de cima quem precisa ser atendido numa urgência qualquer. E tem a desventura de ser internado em algum hospital deve desembolsar uma fortuna. E esvaziar o bolso usando os parcos dólares ou euros que ainda dispõe”.
Mas deixando de lado as intempéries da saúde. As chuvas que enlutaram meia nação brasileira. As quedas de barreiras que interditaram muitas rodovias e mantém ilhados turistas que gostariam de gozar férias em praias lindas e saudáveis.
Vou me reportar a outro assunto. Tema que ontem de tarde recebi do meu amigo Dinho. Que costuma postar memórias de nossa amada cidade. E como eu amo receber tanto pelo Face ou pelos zaps que ele me encaminha. Imagens líricas tendo como pano de fundo músicas antigas e imorredouras.
Ontem o mesmo Dinho, simpatia em pessoa, ainda tenho guardado no meu celular o depoimento de um drogado. Que tenta dizer que o sofrimento por ele usar drogas não é dele e sim de todos que o rodeiam. E este depoimento me fez pensar no sofrimento de mães, pais, parentes que se preocupam com o bem estar deste infeliz usuário de drogas. Entre elas incluo o álcool em uso excessivo não comedido. E ele, um negro que me parece estar dentro de um carro não em movimento. Confessa que quem merece ser punido exemplarmente não é quem tem por ele amor de verdade e sim o fracote que se deixa levar por esse vício maldito. E como as mães de drogados sofrem. Eles retiram de dentro de onde podem recursos para comprar pedras de cracks. Um pozinho branquinho fininho que usam para inalar. E um baseado sem base que me parece não ter tantos efeitos deletérios como as outras drogas. Que, segundo estudos recentes o derivado da maconha tem seus efeitos medicinais.
É esse o depoimento a mim encaminhado pelo prestante cidadão de nome Dinho, por quem tenho verdadeira e inconteste admiração.
E ele, o depoente, continua a dizer: “a minha mulher. A minha querida mãe me deixou nas mãos de Deus e me abandonou a minha malograda sorte ou infortúnio. E as drogas, entre elas não deixo de lado o álcool, não somente nos levam a degradação maior e a sarjeta. E elas acabam com a gente antes que a vida faça o mesmo. E quando a nossa familia abre a mão de mim é o melhor que eles fazem. Quem usa droga não sofre pois fica anestesiado perdido em si mesmo. Mas quem sofre em verdade são os circunstantes que o amam. E as drogas causam uma desgraça em todas as famílias. Já que o maior desgraçado é aquele covarde que não tem forças nem vontade de se ver livre das drogas. Tem mãe que acha que elazinha é a culpada de ver o filho viciado. E ele nem se preocupa com a saúde e o bem estar daqueles que o amam sem esperar a contrapartida do amor em bumerangue”.
Agora voltemos ao meu pregresso atendimento em saúde pública. Não vou repetir que sinto saudade daquelas estoicas enfermeiras e profissionais de saúde que comigo trabalharam. Nem que tento estancar minhas lágrimas que escorrem face afora quando penso na jovem Bianca Bolognani que atendia constantemente no posto de saúde da Chacrinha morta recentemente.
E, mais uma vez indago: “de quem é a culpa de tudo isso? Nossa? Dos médicos que ainda militam em unidades de saúde? Dos desafortunados pacientes? Ou de um sistema injusto que privilegia os de maior posse em detrimento dos infelizes pobres”?
Que tal dividirmos a culpa? Cada um fica com seu quinhão. Em partes iguais ou desiguais?
A você desejo as suas opiniões.