Diz o livro santo que somos pó e às cinzas voltaremos.
Não sei se é bem esse o dito escrito.
Mas, quando eu não mais estiver por aqui, a ver o sol bilhar nesta linda manhã. De uma quarta feira de cinzas. Sei que meu destino ingrato vai ser me metamorfosear num monte de ossos. Já que minhas carnes apodrecerão. Minhas vísceras logo desintegrar-se-ão. Meus olhos antes tão enxergadores perderão o brilho. Meus trajes escolhidos, não por mim, mas sim pelos meus sucessores logo virarão andrajos rotos. Tudo que conquistei em vida serão, ou passados, depois da leitura do meu testamento, nem fui eu quem o redigi. E, se dependesse de meu desejo meus livros todos serão doados a uma biblioteca de uso comum aos estudantes de alguma escola pública. E, caso pudesse escolher quem estivesse presente ao meu velório que fossem verdadeiros amigos. Não circunstantes que exaltassem apenas e tão somente as minhas virtudes dizendo que eu não tinha defeitos. E sim qualidades múltiplas. Que eu fora em vida um bom homem sábio. E não espertalhão quanto tento passar adiante meus livros a venda. E, quando alguém disser: “meu doutor. O senhor, pessoa tão conhecida nesta cidade. Médico respeitado e ainda não aposentado. Andar pela cidade inteira com esta pasta urubuzenta cheia de livros. Não se avexa em vender sua lavra a quem interessar”?
E eu respondo na lata: “eu tento vender livros. Não drogas”.
O carnaval acaba de fechar os olhos. Morreu? Espero que ele ressuscite no ano que vem. Com a mesma máscara negra. Com o mesmo Pierrô chorando de amor pela Colombina. E, se eu tiver a ousadia de beijar-te agora não me leves a mal pois hoje, quarta feira de cinzas. Em muitos locais ainda blocos saem às ruas em seu derradeiro ultimato: parem de festejar! Já que no litoral paulista tantas pessoas sofrem à mercê de enchentes, deslizamentos de terra, mortes cada vez mais contadas. E sofrimentos demonstrados nas lágrimas chorosas de pessoas que perderam algum ente querido e ainda procuram. Entre os escombros. Familiares soterrados sem a menor chance de serem encontrados com vida.
Já fui fanzoca de carteirinha de algum clube onde o carnaval ainda era pulado por foliões mascarados. E com todo respeito pedia ao pai da mocinha para com ela ir pra folia. Depois de prometer. E não cumprir. A promessa de trazê-la intocada e com o selo da castidade como era antes e voltar a casa antes da noite virar dia. Mas com ela passava a noite inteira num banco de jardim em estado de calamidade pública exalando da boca um hálito nauseabundo de canjibrina. Que nada mais é do que uma pinga ruim. Mais álcool do que cachaça da boa.
Agora carnaval pra mim. Como escrito numa crônica passada sob o título “vou pro mato”. Com cachorro. De preferência.
Já o Seu Mané. Um caboclo tinhoso que dividia suas terras junto as minhas. Um que amava tirar bicho de pé quando ele ainda conseguia manter de pé seu bichinho que nos dias presentes só tinha serventia pra mijar. Mesmo assim mal. Devido ao crescimento de sua próstata hipertrofiada. E teimava por que ranhetava em ir a um urologista. E quando a sua mulher o intimou a ir ela foi junto. Pra não deixar ele sonegar alguma informação que não fosse fake News. Mesmo assim Seu Mané não seguiu minhas recomendações de ser operado antes que a coisa piore e sua urina entupa. E ele tenha de usar sonda na uretra por tempo limitado até a feitura da cirurgia. Mas ele, cabeçudo não se operou. Tentou tirar a própria sonda, mas a danada da urina não saiu à luz do dia como eu previa.
Tempos idos e passados e o carnaval se transformou em cinzas nesta quarta feira risonha e linda que amanheceu neste vinte e dois de fevereiro.
E que calorão faz nesta manhã bem cedo. Logo mais à tarde volto à academia do LTC e depois de malhar caio na piscina.
Mas o teimoso Seu Mané relutava em se operar da sua próstata inchada. Pelos meus cálculos inexatos ela deveria estar pesando mais de cem gramos. Enorme como uma laranja das maiores que já havia visto.
Um ano depois soube noticias dele.
Ele acabou morrendo numa quarta feira de cinzas. Sendo sepultado usando o mesmo terninho azul marinho com que casou com dona Celestina.
E eu fui ao velório. Não como seu médico. Disfarçado de padeiro. Pois médicos e fabricantes de pães, bolos e pães de queijo com sabor de uai e trem bão, costumavam usar branco. Pois, caso eu me apresentasse como seu doutor poderia ser incriminado de omisso ou relapso. Por não o ter operado no tempo certo.
Anos se passaram avoando como urubus planando usando as correntes de ar em seus voos magníficos.
E, um coveiro amigo meu, quando foi abrir seu túmulo na intenção de ali sepultar um seu irmão, encontrou a ossada de seu Mané feitas cinzas.
E é esse o nosso final infeliz ou feliz?
Não minha modesta opinião cada um pensa ao seu modo. Eu tenho o meu pensar e vocês o de vocês.