Eles caminham na escuridão sem enxergar a luz ao fim do túnel

Hoje, a hora que a cama me cuspiu dos seus lençóis, do lado de fora da janela fazia-se a escuridão quase inteira.

Mal se via a rua. O colégio, mais que centenário, que infelizmente agora vive de suas lembranças. Quase em escombros. A rua Costa Pereira onde cresci mal se deixava ver dada a mesma escuridão. Olhei mais uma vez pela janela e quase não acreditei naquilo que meus olhos viram. Nenhures clarume do despertar de um novo dia. O sol ainda não havia acordado de entre seus lençóis de nuvens da cor de algodão.

Deixei meu apartamento sem ligar a luz. Tomei uma ducha morna na tentativa inglória de dar um tapa no sono que ainda me consumia. Do meu lado esquerdo ressonava minha pequena grande mulher. Deixei-a sonhar com os feriados que se avizinhavam. Afinal, a partir do próximo sábado já seria carnaval.

Como dito antes não tenho pela noite em alta estima. Durmo sem vontade de amarfanhar os travesseiros. O meu sono se resume das nove e meia as quatro se tanto. Antes das cinco da manhã já estou de banho tomado e meus dentes escovados e de barba rala bem aparada como a grama verde de minha casa na roça. Pra onde pretendo ir na segunda pela manhã. Ou até mesmo após o almoço de domingo, que vai acontecer em outra represa, a de Camargos, onde outra bela casa me espera à beira de outro lago.

Agora, neste presente momento o sol finalmente acordou. E ele acordou bocejante fazendo com que eu abaixe as lâminas das persianas na tentativa de a luz solar não acabe entorpecendo o brilho de minha visão que ainda felizmente me propicia escrever sem lançar mão de um par de óculos de qualquer grau que seja.

Ontem perdi um grande amigo. Não sei se o médico que atestou-lhe o óbito vai anotar como causa mortis a tal doença consuntiva. De maior gravidade que o temido câncer. Ou a até mesmo a doença de Alzheimer que vitimou meu pai e tantos outros. Pelos psiquiatras diagnosticada como depressão. Com o aval dos psicólogos e profissionais outros que se incumbem de tratar as doenças mentais.

E como a nossa caixa pensante os prega peças. O cérebro humano é composto de um emaranhado portentoso de substâncias muitas ainda desconhecidas pela ciência. Embora, nos tempos de estudar a anatomia, quando a gente, estudantes de medicina, tínhamos a nossa frente, naquelas mesas azulejadas com um cheiro ocre de formol. Crâneos já abertos ao meio dos dois hemisférios. E a gente, com instrumentos cortantes na mão enluvada, ignoramos a serventia tanto da substância cinzenta como da outra de cor mais clara.

E nossos mestres de anatomia nos encorajavam a fatiar os cérebros tim tim por tim. Encéfalo, continente de 86 bilhões de neurônios. Sendo ele o responsável pelo controle do corpo humano através das reações voluntarias e involuntárias de nossos atos e ações. Como falar, mexer os dedos, comer entre outras coisas inimagináveis aos olhos normais. E outras sem a devida intervenção do ser humano como respirar, batimentos cardíacos, etc. e tal.

Suas partes indivisíveis são: córtex, conhecida como massa cinzenta, responsável pelo pensar e interpretar o que é enviado pelos cinco sentidos que são: visão, audição, olfato, paladar e tato.

Já a massa branca, localizada na parte inferior do cérebro, essa região é definida como a rede de comunicações onde ficam os neurônios.

O cerebelo fica na parte de trás do cérebro. Sendo responsável pela coordenação do equilíbrio.

Além de tudo isso escrito nos parágrafos anteriores, mais precisamente na região do córtex, é subdividido em quatro partes especificas e que possuem funções distintas. Eles são chamados de lobos cerebrais.

Mas vou dar um chega pra lá nas aulas passadas de anatomia relativas ao cérebro humano. Já que o dos símios é muito parecido.

E vamos chegar, finalmente, ao ponto que interessa.

Quais as enfermidades mais prevalentes nos tempos atuais?

Se me responderem ser o câncer, em qualquer uma de suas variantes, não vou dizer que estão errados.

Se me falarem que a doença mais em voga que nos atormenta e me responderem que são as viroses, como a covid, não dir-lhes-ei que estão redondamente equivocados.

Se por acaso me disserem que a tal doença é devida a acidentes, quais sejam de trânsito ou até mesmo ocorridas no achego de nossos lares, soberbamente nos idosos e já sem capacidade de cognição e de andarem como antigamente, não vou tentar mudar-lhes a opinião formada.

Mas, na minha vida como médico, sobretudo no serviço público, naquele velho postinho de saúde que ainda tem o nome do velho guerreiro, Chacrinha. Ali, dentre dez consultantes que tinha fichas marcadas previamente agendadas, cerca de nove eram pacientes que buscavam receitas de tarja preta. Entre eles cito os antidepressivos, os ansiolíticos, os antiepilépticos e outros congêneres.

Ainda me lembro, não com saudades, de quando faltava algum receituário de tarja preta ou em duas vias. Eram um desatino total,

“Doutor? Como vou ficar em a minha receita de Rivotril, Paroxetina, Gardenal, Zolpiden, e coisas e loisas e tais”?

E eu também perdia a fleuma. Trocando em miudezas perdia a paciência, mas não perdia a compostura.

Depressão é coisa séria. Não uma brincadeirinha de criança. Que, ao balançar no velho balanço acaba despencando e ferindo o lindo joelhinho mimoso. Que nunca foi ralado numa queda qualquer.

Quantos amigos já perderam a vida numa corda estendia na trave do telhado do próprio quarto onde deveria dormir e não conseguem. E passam as noites em claro apesar de ser uma noite escura.

Eles, os deprimidos, devem ser olhados com cautela. Pois uma vez inglórias as suas tentativas de suicídio eles persistem novamente outras incontáveis vezes mais.

Não sei se é preciso de coragem ou uma pitadinha de insanidade para dar cabo da própria vida.

E eles, os depressivos, caminham na escuridão sem, contudo, encontrarem uma luz sequer ao fim do túnel.

 

 

 

 

 

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