A hora da partida (Sophia de Mello Breyner Andresen)
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa
Estala o chão e as portas batem quando
A noite em cada nó em si deslaça
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida
Ontem partiu um grande amigo. Não grande em se considerando metros ou polegadas.
Mas José Orlando se tornou grandioso não só aos meus olhos. E sim de todos aqueles que tiveram o prazer de nele pousar seus olhos.
Por que o título na linha de frente?
Seria uma alusão aos combatentes que ficam entrincheirados tentando se proteger das balas que avoam por perto de suas cabeças?
Ou aqueles também heroicos profissionais de saúde que se esquecem da própria para cuidar do bem estar de terceiros?
Ou seria outros não menos ilustres enfocados. Os mestres que ensinam o baba. Sem a contrapartida de um bom salário?
Poderiam ser tantos outros abnegados cidadãos que nesta crônica triste de hoje cedo. Um dia depois do óbito do meu amigo PEIXEIRO. Todas as letras em maiúsculo sim.
Bem que poderiam ser homenageados. Muito embora já tenha escrito em letras miúdas. Se porventura desejarem me celebrar que seja em vida. Já que no post mortem não saberei quem em verdade derramou lágrimas sinceras sobre minha pessoa. E de nada adianta erguerem hermas ou bustos em praças públicas se o destino delas vai ser uma reles latrina de pombos. Da mesma maneira que na linha de frente, frente a frente com o perigo, posicionam-se soldados, professores, bombeiros enfrentadores de incêndios, e até mesmo entre eles incluo guardas penitenciários.
Gostaria de a eles render aplausos e não apupos, àqueles trabalhadores que permanecem. Como permanecia meu grande amigo PEIXEIRO. Que seja em domingos e dias santificados. A frente de bombas de combustível. Os nomeados frentistas. Servis funcionários que preenchem o tanque de nosso carro. E passam o dia inteiro e parte das noites escuras ou estreladas. Não só fazendo com perfeição os seus serviços. E eles, os frentistas, ainda calibram os pneus de nossos autos. Abrem o capô na intenção de verificar com exatidão o nível do óleo e se tem água suficiente naquele pequeno reservatório que ajuda a clarear o para-brisa. Para que não nos turve a visão nos dias chuvosos. E, não somente tanto trabalho, depois do tanque cheio ou pela metade, eles, os frentistas ainda têm de ou passar o cartão ou ainda dar o troco naquela nota alta. Que nunca lhes passou pelo orçamento minguado. Pois eles, os frentistas, percebem pouco mais de um salário mínimo. Se mais me corrijam logo.
Na linha de frente podem se posicionar soldados. Já que os generais se alojam em salas dotadas de ar condicionado. E, em seus ombros proliferam três ou mais estrelas indicativas de suas patentes.
Na linha de frente estão mestres. Professores e professoras. Que recebem alunos deseducados e tentam corrigir seus senões. Incumbência não deles e sim de seus progenitores.
Na linha de frente. E não de trás. Estão muitos desconhecidos. No entanto ilustres cidadãos prestantes. Sem eles o que seria de nossa sociedade?
E, nesta linha de frente mais uma vez cito, entre tantos, meu amigo José Orlando. Que no dia de ontem nos deixou sem gasolina. Com nosso tanque vazio, mas recheado de saudades suas.