Ainda sob o frio gélido da emoção acabo de receber a triste constatação da morte de um grande amigo.
Eu o conheço desde vetustos anos.
Quando passo naquele posto de combustível. Não sempre para encher ou por um cadinho de gasolina no tanque. Apesar de que, se depender de mim os postos teriam sua triste sina de vender menos e muito menos mais. Pois faz parte do meu modus vivendis sempre evitar o rodar de autos pela cidade inclusive até mesmo pelas cercanias. Já que tenho pernas fortes ainda o bastante para não amuletar-me tão prematuramente. E espero que as muletas tardem mais tempo para me servirem de bengalas. No meu closet tenho uma que foi do meu saudoso pai. E sempre a guardo com o maior carinho e respeito em sua honra e homenagem. E ele as merece muito mais do que muitas pessoas que têm seus bustos ou ermas distribuídas pelas praças ou jardins. Pois ele não só foi meu exemplo como tento ser seu seguidor.
E a tal doença a qual chamam de depressão se torna mais e mais prevalente em nossos tempos sombrios. Onde a discórdia e introspeção. O vazio que não dá conta de preencher a nossa alma e privá-la da solidão.
Acaba ceifando vidas ainda úteis à sociedade. E como este meu amigo recém falecido tinha a sua boa utilidade. Ele foi borracheiro. E sempre pronto a ajudar aos seus colegas daquele posto de gasolina. Pra onde sempre me encaminho as vezes que vou pra roça. Bem situado na pracinha do Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Cujos proprietários são aparentados perto de minha esposa. Já que seu pai era irmão do saudoso José Abdon Lasmar. Pai amado de cinco irmãs filhas da também saudosa dona Edmea. Se por acaso seu nome de verdade for grafado Edmeia que recorram à certidão de nascimentos. E ele tinha apenas um filho o epitetado Peninha.
E este meu amigo pela segunda vez tentou. Sem lograr êxito dar um fim a sua vida infeliz?
E, no dia de hoje, quinze de fevereiro, antevéspera do carnaval. O meu já saudoso amigo. Dir-se-ia compadre. De nome fantasia Peixeiro. Mas seu nome de batismo era José Orlando. Pessoinha de diminuta estatura em contraste com sua grande envergadura moral.
Simplesmente elegeu para morar num quartinho acabrunhado nos fundos daquele posto de combustível já citado dantes. Pra onde ele se recolhia ao empoleirar das galinhas.
No entanto as suas companhias exibiam orelhas orelhudas. Os coelhos que ele criava, há tempos idos, em gaiolas, um dia ele me deu de presente um casal. Que pouco duraram em minha roça. Já que um deles escapou e foi atropelado por um cavalo em trote cadenciado.
E a carne de coelho. Feito guisado. Por não ser muito apreciada acabou sepultando em uma pá de cal numa sepultura rasa.
E eu conheço o Peixeiro não somente como borracheiro. Mas ele sempre exibe aos passantes uma grande cicatriz do lado direito. Se não me engano. Quando dele tive de extrair um rim apodrecido de muitos anos. Não sei se foi por um cálculo encravado no ureter ou por uma doença congênita que fez o seu rim inflar como um balão que avoou por pouco tempo.
Mesmo assim meu amigo José Orlando sempre o encontrava pilheriando. Contando chistes. Assentado àquele banquinho tosco feito por ele mesmo.
Ele inclusive vendia ovos ditos caipiras. Mas nunca ouvi dos seus ovos qualquer palavra dita em caipirez.
Mas era de uma simpatia contagiante meu amigo pescador. Quantas e quantas vez o intimei a ir pescar na minha roça e ele sempre recusava com um chamativo “vou depois”.
Nunca iria imaginar que meu amigo sorridente sorria por fora e chorava por dentro.
Ele tinha seus motivos para se tornar infeliz. Vivia cercado de amigos. Os primos da minha Rosa eram seus grandes amigos. E eu me incluo entre eles.
Hoje, de tarde, ao deitar o sol para dormir, soube do seu passamento. E ele conseguiu seu intento de dar cabo da própria vida.
Na hora deixei meu apartamento e aqui estou. Na minha oficina de trabalho. A prantear meu pranto.
Amanhã vou estar presente ao seu velório. E não sei se darei conta de conter minhas lágrimas que. Neste triste momento teimam em encharcar meu rosto de uma água que não é de chuva. E sim uma expressão exata de sentimento.