E eu pensava que lembranças de um grande amor não poderiam ser tocadas

O toque é um dom que os amauróticos sabem dizer como são bem melhores do que a gente que enxergamos. E os desprovidos de visão reconhecem os interlocutores pelo timbre da fala.

A capacidade de poder ver a beleza de um dia que nasce. Seja um dia ensolarado ou até mesmo tinto em cinza. De ver a chuva cair devagar sem causar estragos as populações infelizes que não têm onde morar a não ser em áreas de risco. De poder admirar o frenético voo de um beija-flor osculando as pétalas e o miolo das flores. Ajudando, como a servil abelhinha, a polinizar. E a nós, que felizmente temos o sentido da visão de poder ver tantas coisas lindas ao derredor. Esquecemo-nos de agradecer a um ser superior que não se deixar ver. Mas nele creio como acredito no amor filial. No mesmo amor distinto entre um homem e uma mulher. Que, apesar de o tempo passar ele continua mesmo ao sabor das curvas pecaminosas que o corpo de sua mulher, antes bela como o canto de um rouxinol. Se metamorfoseia em uma vetusta fêmea sem os seus contornos graciosos da cintura. Sem a pele de pêssego a passear por aquele rostinho que nada deixa a desejar aos modelos de capas de revistas infantis. A mercê das inevitáveis celulites que fazem as pernas cheias de estrias e o abdome não tanto chapado como as barriguinhas lisas as quais são vistas nas academias. Os tais abdomes afundados e não protusos como os que se observam nos cervejeiros incorrigíveis que mal enxergam o seu aposentado piu piu.

Isso tudo descrito nos parágrafos acima. Interrompo minha narrativa ao contar uma história. Que seja estória. Ou causo. Se foi verdade ou invencionice minha tomem-no como ficção.

De um rapaz formado em medicina por uma boa universidade da nossa capital.

O qual, movido por um desejo de continuar na sua especialidade acabou se mudando para Madri. Na intenção não só de aprender a lingua de Cervantes e de tantos escritores notáveis que escreviam num escorreito espanhol. Não num portunhol arrevesado como os aqui nascidos se acostumaram.

E, já com a viagem agendada para meados de setembro de um mil novecentos e setenta e seis. Deixando duas namoradinhas debaixo do balaio. Não seriam eles galinhas chocas e sim belas franguinhas mimosas e apetitosas a espera de um bom casamento.

Algum tempo depois ele voltou ao seu rincão. Feito médico especialista em algum setor do corpo humano. Acabou se consorciando com a mocinha linda deixada a espera daquele dia feliz de ela usar véu e grinalda. De ser celebrado o casório numa linda festa no clube principal de nossa cidade. Anos e após anos se passaram.

Foram mais de trintanos se desdobrando entre um amor que parecia não ter fim nem começo. E ambos se revezavam em desavenças e boas aventuranças.

E, uma vez passados exatos trintanos o não tão jovem doutor teve o prazer de reencontrar seu passado sob a forma da outra garota. Agora transformada em mulher guerreira. Já apartada do primeiro marido. E ele ainda casado com a primeira namorada.

Um livro editado pelo autor foi parar, sem projetar, as mãos daquela mulher madura, já casada em outras núpcias. Com um parceiro com quem vive cada um na sua morada. Cada um no seu canto para não perder o encanto.

E, depois de o livro ter chegado as suas mãos as lembranças da antiga relação. A qual não tem volta nem reviravolta. Agora só se serve a doces lembranças açucaradas do quão bom foram aqueles tempos áureos dos encontros e desencontros.

Em várias partes de nosso país. Inclusive uma vez apenas no exterior.

Até que infelizmente o fim chegou.

Agora eles tomaram novos rumos e prumos. Cada um na sua vida costumeira. Ela lá e eu cá. Não poderia nunca dizer que sou infeliz com minha esposa. Certo que nosso amor mudou. Agora ele amadureceu como uma manga prestes a madurar. Tomou novos matizes de cores e dissabores.

E, quanto ao outro amor que já passou. Como o vento passa assobiando.

Nos dias de hoje reduzido a velhas lembranças.

Não posso dizer que não desejo tocá-las.

Foi no dia de ontem que a mim perguntei: “lembranças de um grande amor podem ser tocadas? Ou somente sentidas”?

Até a presente data não sei a resposta. Se alguém a descobrir me diga logo. Por favor eu lhes rogo.

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