Nem sempre a gente acorda de bem com a vida.
A felicidade que se manifesta sob a forma de alegria é inconstante como o tempo que ora faz sol ora a chuva despenca.
E como tem chovido neste começo de ano.
Chove durante a noite. Volta a chover logo ao amanhecer.
Hoje mesmo o céu se mostra cinzento. Uma chuvinha miúda está caindo desde a noite passada.
Como seria apetitoso permanecer na cama nesta manhã chuvosa. Escutando os pingos da chuva a tamborilarem no vidro da janela.
Pena que nem todos podem se dar a esse luxo. Nem eu mesmo, contrariando a minha vontade, ai se pudesse aqui ficaria, assistindo a televisão, ou lendo um bom livro.
Mas tenho de me deslocar até a minha oficina de trabalho. Esta hora temprana é a melhor para colocar minhas escrevilhanças em dia.
E como a manhã me inspira. A tarde é hora de trabalhar. A noite foi feita para sonhar. E nada melhor do que passar a noite em boa companhia.
Nesta hora madrugada já está de pé meu amiguinho da roça. Não tão pequenino assim. Já cresceu o suficiente para apanhar jabuticaba sem precisar de escada. E como ele sofre para ordenhar as vacas assentado àquele banquinho tosco. Feito com restos de madeira sobras de uma grande árvore que caiu durante a chuvarada da semana passada.
Binho acorda mais cedo do que eu. Pois tem de ajudar ao pai nas tarefas da roça que não são poucas.
Antes das cinco e meia já tomou seu cafezinho requentado na trempe do fogão a lenha. Veste a mesma bermuda amanhecida na cadeira a beira da cama onde tenta dormir. Pensando no tempo que vai fazer no dia de amanhã. Se chove em demasia o trabalho dobra. Tem de encontrar a vaca recém-parida escondida num matinho perto. E quem diz que a Braúna ali estava? A danada escafedeu-se varando a cerca de arame farpado em busca do canavial do vizinho. Foi preciso pegar a égua malhada para procurar a escapista. E perdeu horas preciosas até encontrar a mãe de uma linda bezerrinha.
Já era antes das sete e tanto quando ele e o pai terminaram a primeira ordenha. Lá no alto do morro agudo já buzinava o caminhão leiteiro. Com aquele lamaçal seria impossível o caminhão leiteiro chegar ao tanque de expansão. Repleto até a boca.
E a chuva atazanava-lhe a vida. A silagem de milho, recém-enfiada no buracão, ameaçava azedar. E era a comida para o rebanho degustar até a próxima colheita.
E o preço do leite? Despencou como a chuva que caia desde o mês passado. E mal dava para cobrir as despesas. E como encarecia os insumos! O preço da soja estava pelas alturas. Um saco custava quase o preço de cinquenta litros de leite. Não aquele leitinho aguado vendido em supermercados. E sim um produto gordo, cheio de vitaminas, com o qual daria para fazer uma dúzia de queijos frescos. Com apenas vinte e poucos litros.
Naquela manhã chuvosa Binho acordou meio preocupado. A estrada até a roça se mostrava intransitável. Não havia como chegar até lá. Só se fosse de helicóptero ou embarcado na arca de Noé.
Uma semana inteira seria insuficiente para a prefeitura da sua Ijaci dar conta do recado. Não havia como pôr as máquinas a trabalharem. Mais um prejuízo se amontoava. As contas não paravam de chegar.
Foi quando a ele enviei uma mensagem.
“Binho. Tá tudo joinha? A estrada está mais ou menos? Dá pra chegar até ai”?
Foi quando ele me respondeu, demonstrando tristeza na resposta: “não venha não. Deixa para quando a chuva melhorar. Vou sentir saudades do amigo. Espera até a chuva serenar.”
Foi a primeira vez que senti tristeza na fala do amigo Binho. Espero que para nós o sol volte a brilhar. Para novamente o seu sorriso enfeitar.