Divorciei-me

Divórcio, palavra forte e ao mesmo tempo doída. Que quando se da subentende-se separação. Quebra de uma união antiga e até mesmo recente.
Quando duas pessoas de sexo oposto. Não necessariamente um homem e uma mulher. Já que a modernidade em que vivemos nem sempre aqueles que pensamos do sexo masculino. Se veste saia esconde por baixo dela uma calcinha ou até mesmo cueca.
Homens de agora mudaram seus costumes. Que saudade dos bons tempos de outrora.
Que para conquistar uma moçoila casadoira. Aquela garotinha prendada, recatada, virginal não apenas no signo. Tínhamos de cair nas graças do pai.
Tratar o sogrão a pão de ló com doce de leite em meio a queijo de minas.
Prometer e trazer a nina a hora marcada e nunca atrasar a entrega. Senão o bicho vai comer e o tempo fechava.
Melhores dias não houveram.
Quando a gente, mocinhos espinhentos. Imberbes, embora passássemos a lâmina de barbear a frente do espelho procurando algum solitário fiozinho de cabelo a nascer em nossa cara lisinha e nada víamos.
Quando a missa das dez terminava um cadinho antes. E nós outros não víamos a hora. Nem minutos e segundos quando o padre celebrante tirava a batina. Dependurava sua vestimenta na cadeira a frente da sacristia. E fazia a derradeira recomendação com sua voz de trovão: “vão em paz meus filhos (eu ficava encabulado pois. Que eu soubesse era filho de meus pais não dele).
Íamos às carreiras procurar nossa ficante. Ficante é palavra de agora não de antes que era mesmo namorada. Se a procura desse resultado feliz ficávamos por ter achado aquela linda ou feiosa mocinha no rela do jardim. E de nossas piscadelas nascia algo mais profundo que o final do mundo. Um namoro, seguido de um noivado, bem sucedido por um casamento com direito a festança e abundância de comida boa e cerveja gelada ao ponto.
Divórcio, palavra dura, que pode levar à solidão, à clausura de um ou ao prazer de viver feliz na própria companhia prazerosa de si mesmo.
Muitos entendem por divórcio apenas o ato de separar um do outro. Desunir aquele casal que vivia bem ou às turras dentro de quatro ou mais paredes.
Duas pessoinhas que, ou se conheceram na juventude. Ou no mais tardar dos anos uma vez adultos ou idosos.
Esse dito, maldito que muitos entendem, que o padre diz aos noivos. Já no altar depois da troca de alianças: “que essa união dure até que a morte os separe”. Finaliza dizendo: “o noivo pode beijar a noiva. ”
Eu já vi muito noivo tascando um beijão na noiva. E uma vez em lua de mel tudo termina em fel mais amargoso que leite azedo.
Tenho pra mim a máxima: “um casamento falido pode ser o começo de uma grande amizade”.
Viver em casal entre quatro ou mais paredes sempre bem. Sem brigas, discussões, trocas de insultos e mal querenças. No meu entender assemelha-lhe àquele filme estrelado por Tom Cruise de nome Missão Impossível.
Cada um tem seus defeitos e qualidades. Felizmente nem sempre um mais um é igual a dois.
O que seria do amarelo se as flores dos ipês fossem todas dessa mesma cor?
Antes florescem as flores roxas. A seguir vem as amarelas. Em último lugar as brancas.
Pra muitos o divórcio não é o final da linha onde passa o trem de ferro.
No meu entender pode ser a rotunda onde a velha Maria Fumaça faz a volta de ida de São João Del Rey para Tiradentes. Nessa linda aprazível viagem escutando o sonoro “piuii” saído da chaminé da Maria Fumaça que dantes percorria os trilhos do nosso passado.
A dura, espinhosa, dificultosa decisão de uma separação não deve ser tomada na pressa do afogadilho.
Ela deve ser como uma abóbora. Colhida do abobral no ponto certo antes de apodrecer por completo e ficar imprestável mesmo a ser comida pelos porcos famintos.
Divorciei-me, quase. Não da minha esposa, companheira de quase uma vida inteira.
Não sei se vai ser um pedido de tempo. Que pode se alongar até quando não mais tivermos tempo. E nossa existência não nos permitir mais delongas.
Jamais me divorciarei dos meus escritos. Levá-los-ei comigo até quando não mais puder escrever usando o que tenho de melhor. Essa inspiração interminável que graças ao bom paizinho do céu me acompanha a mais de vinte e seis anos.
Não me divorcio, espero, da saúde que felizmente tenho a dar ou emprestar aos que dela precisarem.
Não pretendo me divorciar, nem me separar. Desse meu costume de acordar bem cedinho. Aqui chegar com milhares de ideias. Inseri-las em forma de crônicas. Que seja nos meus romances. Espero terminar mais um dentro em breve de nome Ucrânia.
Pretendo, até mesmo entendo. De nunca ter de me divorciar da minha família que ajudei a compor junto a essa mulher maravilhosa que tem nome de flor Rosa que é.
Não me divorciarei jamais dessa minha profissão tão linda que me acompanha a mais de cinquenta e dois anos. Hoje metade de mim inda é médico. A outra escreve.
Se me perguntarem se estou divorciado respondo: “da vida nunca. Da minha família, jamais”.

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