A gente vive esperando dias melhores.
E por vezes a espera acaba não acontecendo.
Talvez amanhã. Ou depois de outro amanhã, o tão esperado aparece, sem mostrar a cara, sem se anunciar previamente.
Tem gente que vive na esperança. E quando ela não se concretiza acaba desanimando.
Quem espera sempre alcança. Dito que eu não reedito. Pois não tenho a devida paciência de esperar.
Sempre chego antes da hora. Não deixo ninguém a minha espera. Por isso sofro. Por desejar que todos sejam iguais a mim.
Ainda não pude aquilatar que a perfeição inexiste. Estamos tão distantes dessa realidade quanto a terra do sol.
Mesmo assim persisto. Tentando fazer o mundo a minha maneira. Vou terminar sem conseguir meu intento.
Ainda não foi desta vez que o sol voltou a brilhar. A chuva ainda continua a cair. Mansamente. Quem sabe noutro amanhã ela desista de macular a terra com suas gotas úmidas. Trazendo o clarume do céu que tanto me apraz.
Conheço um amigo, que já partiu rumo ao infinito, talvez ele more ao lado de Deus Pai, de nome Pedro, talvez muitos o tenham conhecido, escritor fecundo, jornalista combativo, que tinha uma página ao lado da minha, num extinto jornal, falecido há alguns anos atrás.
Nos últimos tempos da sua enfermidade, assaz consumptiva, eu o visitava quase sempre, ao voltar da roça.
Na sua casa sempre o encontrava esperançoso de se curar. Não media esforços no seu tratamento. Foi operado diversas vezes. Embora o câncer que o acometia era por demais agressivo. E retornava cada vez mais envolvente. Provocando metástases em todos os seus órgãos adjacentes.
Pedro nunca perdeu a fleuma. Corajoso ao extremo. Nos derradeiros anos de sua vida nunca o percebi desanimado. Embora soubesse de sua condição que se agravava mais e mais.
Numa das vezes que saímos juntos, na minha caminhonetinha prateada, levei-o a Ribeirão Vermelho.
Ele, de vidro aberto, distribuía gracejos aos passantes, conhecidos ou não.
E assim continuava a visitá-lo. Num sábado combinamos que o levaria à roça.
Assim o fiz. E chegamos aquele lugarzinho ermo antes da hora do almoço. Lá embaixo se podia ver a represa do Funil.
Ele olhou pra baixo, embasbacado com a beleza do lugar, e vi brotar-lhe dos olhos duas gotas de lágrimas salinas.
Era um choro de alegria. De contentamento, talvez de despedida.
Voltamos a sua morada e ele me agradeceu a pequena viagem.
Duas semanas depois votei a sua casa ao saber que seu estado havia se agravado.
Encontrei-o agonizante. Irreconhecível. Ainda fumava um último cigarro. Tentei demovê-lo do propósito.
Naquele momento ele abriu os olhos. E me reconheceu.
Foi, naquele derradeiro instante, um dia depois ele subiu às alturas, do amigo Pedro ouvi: “Paulo, eu te amo. Ainda não foi desta vez que vamos nos despedir. Ainda vamos dar umas voltinhas na sua caminhonete. Não se esqueça nunca de mim”.
Pena que a sua morte aconteceu naquela mesma semana. E não pude satisfazer ao seu desejo. Que não fosse aquela a derradeira vez.