Hoje recomeça o ano letivo nas universidades.
A cidade novamente se enche de estudantes depois de um longo período de abstinência.
Felizmente, em voz uníssona canta a cidade. As repúblicas novamente anunciam a volta dos estudantes. O comércio, antes às moscas, de novo reflete a alegria de ter de volta às compras tanta gente vinda de fora.
Parece que Lavras não respira aquele ar de juventude. E como me apraz ver aquelas pessoinhas de cabelos cortados, ostentando cartazes no peito, cada um com um apelido dado pelos veteranos.
Mais parece uma revoada de pardais, com suas algaravias ruidosas, a encherem-nos de alegria, nestes dias precedentes ao carnaval.
Já eu, com meus setenta e dois anos completos, conto nos dedos às vezes quando parei. Pra um respiro apenas. Sempre acordo a mesma hora, antes das seis, e aqui estou preparado para mais um dia de trabalho. Se tive férias foram poucas. Mas não me queixo. Nunca me vi aposentado, pois o descanso no meu conceito foi feito à hora do sono.
Sou workaholic desde menino. Não tenho ganas de jamais ficar à toa. O ócio pra mim é o inicio do fim.
Desde quando criança era irrequieto e pensador. Matutava com meus botões qual brincadeira iria começar. Se jogar finca, ou bete, bolinhas de gude, ou outra traquinagem iria aprontar. Felizmente, naqueles áureos tempos, não existiam os tais tablets ou celulares. E os joguinhos eram outros. Que dispensavam a internet. Ou se andava de patinete ou de carrinho de rolimã.
E os tombos inevitáveis aconteciam. Os galos na testa eram frequentes. Nada que uma bolsa de gelo na testa, ou um carinho de nossa mãezinha, não desse conta de curar.
Nunca parei de pensar no que seria no decorrer dos anos. Desde o curso primário, passando pela admissão, até concluir o segundo grau, depois vinha o científico, até o tempo do vestibular.
E a escolha já tinha sido feita. Minha opção pela medicina dispensava outra opinião. E assim passava o tempo. Sem tempo de parar.
E como me sinto bem não tendo tempo. Aproveito ao máximo os dias que me restam.
Férias, apenas alguns dias me satisfazem. Não me canso de aqui ficar. Já perdi noites de sono preocupado com o porvir.
Que seja eterno o meu viver.
Caso algum dia tiver de me despedir da vida que seja num trinta de fevereiro. Numa tarde ensolarada. Vendo o arco-íris despontar.
Nunca parei pra pensar. Simplesmente vivo. Não tenho vícios maiores senão viver. Não penso no dia em que vou morrer.
Desfruto em plenitude máxima o dia de agora. Pra que pensar no que vai ser amanhã?
Nunca parei. Pra que ficar na cama sem ter o que fazer?
Agora, neste dia cinzento, meados de fevereiro, as aulas das universidades recomeçaram.
Nem no meu tempo de estudante tinha tempo de parar. Agora que estou na melhor idade, parar só no dia do descanso final.
E que ele tarde por muitos anos mais. Até o infinito, já que o para sempre não é possível, que seja perene a minha vontade de viver.