Por vezes acordo durante a noite pensando no que escrever amanhã.
Hoje, depois de um dia cansativo, perdi o sono pensando na vida.
Qual a definição exato de velho? Seria aquele que tem muito tempo de vida? Que data de uma época remota ou antiga? “Meu avô é velho”. Um dia me disse meu netinho Theo.
Fora de moda, ultrapassado, gasto, como um sapato velho, antiquado, em desuso, velhusco, idoso, sênior, ancião, e por aí vai.
A gente fica velho a partir de quando? Depois dos enta? Sessenta, setenta, beirando os oitenta? Depende de nosso entendimento.
Eu, ultrapassado a casa dos setenta, em absoluto não sinto o peso dos anos. Ainda sou capaz de subir a ladeira. Levantar ou assentar-me à cadeira, sem fazer esforço algum. Tenho o tirocino de quando jovem. A memória ainda não me atraiçoa. Tenho o desejo ainda maior que dantes quando vejo uma mulher bonita. E não desejo voltar no tempo. Só se for com a experiência acumulada com o passarinhar dos anos.
Velho, no meu entendimento, não se equivale aquele sapato gasto, furado na sola. Eu ainda dou meia sola. É só espichar um cadinho ao redor dos olhos encovados, reduzir a papada por baixo do queixo, e tirar algumas gordurinhas na barriga um tanto obesa.
Velho, depende do prisma que se observa.
Tem velho que não se sente nada velhinho. É capaz de correr como eu corro. Nadar com um pato sem asas. E admirar o passado com olhos de pura saudade.
Velho, depende do modo de pensar. Não ficar dependurado na cacunda dos filhos. Ser independente não apenas da aposentadoria. E ainda ser capaz de trabalhar. E ainda por cima ajudar os descendentes.
Ser velho não significa permanecer no banco do jardim. Vendo o tempo passar. É enfrentar as dificuldades de cabeça erguida. Mesmo envergado na sua coluna dobrada ao peso dos anos.
A ser chamado de velho gagá prefiro que me chamem de tio. Aquele tiozão orgulhoso dos anos vividos.
Velho, por favor, tenham por ele respeito. Não só pela experiência acumulada. Como também pela idade avançada. Nunca ocupem o lugar a ele reservado. Deixe que ele, mesmo surdo, decrépito, fale besteira, e o ajudem a atravessar a rua, mesmo que ele não peça.
Ser velho não é padecer no paraíso. Ele já viveu muito. E ainda vai viver feliz ao lado dos filhos. Não o deixem jamais num lar de idosos. Ele merece o seu carinho e respeito no tempo que lhe resta.
Velho, caduco, não é coisa que se diga. Tratem-no com cordialidade. Não façam troça das suas dificuldades. Não se esqueçam de que o velho carrega nas costas uma criança que se foi, um jovem que ficou pra trás, um adulto que se aposentou, depois de muitos anos de trabalho duro.
Ser velho não é sinônimo de decrepitude. Tem muito velho por aí que é arrimo de família. Como existem muitos filhos cangurus.
Existem distintos matizes de velho. Aquele que de fato envelheceu. Aqueloutro que ainda se sente jovem. Aquele velho enfermo que requer cuidados. Todos nós um dia chegaremos lá.
É só dar tempo ao tempo. Não estamos imunes ao envelhecimento.
Cada um tem a velhice que merece. Dai o meu conselho aos velhos.
Ande, corra, nade, leia, exercite-se.
Não é defeito ficar velho. Defeito sim é permanecer a vida inteira se queixando da vida que ficou pra trás. E não olhar o futuro com olhos de esperança em dias melhores.
Hoje perdi o sono pensando no significado da palavra velho. Ela é tudo isso. E ainda muito mais.