Quantos milhares nesse mundo tiveram a infelicidade de nascer faltando uma coisinha em seu corpinho.
Uns lhes falta um cadinho de inteligência. Já outros sobra uma tonelada de neurônios dando trombada em sua massa cinzenta.
Segundos, sucedem-lhe os terceiros, dormindo em quartos escuros de pouca ventilação.
Nascem com aquilo virado pra lua. Mas, a falta de lua cheia que passa a minguante. Aquilo que deveria ficar recluso onde o sol não bate. Por levar sol no traseiro, pelado sem tapar as nádegas. Acaba tendo uma baita insolação na zona do agrião.
Nascer sem um braço não impede ninguém de dar um abraço.
O único que tem pode perfeitamente enlaçar a cintura de um amigo e dizer ao pé do ouvido: “amigo, como me apraz te abraçar. Perdi meu braço direito e me resta o esquerdo. Embora ele seja esquerdista não sou petista jamais. E tome lá meu forte abraço antes que me endireite e passa a votar no Flávio”.
Tenho verdadeira ojeriza, como médico especialista. No meu caso sou urologista e clínico das generalidades como quem sai de uma escola de medicina se torna habilitado.
Um intrometidinho, ao me reconhecer pelas ruas como médico especialista.
Tenta dar um golpe de João sem braço. Impertinentemente me para na calçada. De cara de pau seco já que nada tem chovido.
Usa e abusa dos meus ouvidos e me pede uma consultinha.
Ontem aconteceu o sucedido.
Um sujeito, até que simpático e atrevido.
Camelô de quem comprei uma mercadoria não sei qual.
Sabendo quem eu era. Cara mais manjada é a minha aqui na nossa cidade.
Muitos me acham aposentado e não me sinto ainda assim.
Aposentado sim do serviço público. Do consultório onde estou penso só quando a morte me intimar a praticar urologia na minha última morada. Espero que ela tarde mas, sei que não vai falhar.
Voltando ao vendedor de rua. Ah! Não fosse a informalidade não sei o que seria desse nosso país.
Em boa hora já tenha oferecido em catira um dos meus livros em troca de seus produtos e ele não topou.
Naquela tarde gostosa. Quando apressado descia a rua em direção ao meu apartamento.
Ele deixou sua banca no meio do passeio. Me chamou a um canto.
Pediu reserva do que estava me contando.
E buzinou estridente no meu ouvido direito: “oia seu doutor. Fui operado de castração (vasectomia). Ele me cobrou caro. Foi particular. E como senti dor. Saí do seu consultório cuspindo marimbondo ferroando meu saco inchado. Agora sinto mais dor ainda que dantes. Meu saco fica inchado o dia inteiro. E como dói. O senhor pode me receitar um remedinho?”
O que voismecês acham que eu deveria responder? Melhor ainda o que fazer?
Foi o que eu mandei e ele não fez e ainda ficou zangado comigo.
“Tira sua roupa. Fica de quatro deitado no passeio em meio a essa multidão de passantes. Aproveito examino sua próstata e olho pro seu saco inchado. Certinho?”
Esse sujeitinho. Golpista do joãzinho sem braço que quer abraçar sem. Queria se consultar, sem pagar. Nem sei se plano de saúde ele tinha. Em plena rua muito movimentada.
Não carece dizer que lugar de consulta é adonde?
Aqui, nesse lindo domingo, à Rua Misseno de Pádua 352, sala 701, Edifício das Clínicas. Próximo à Santa Casa, centro de Lavras.