Obesidade tem sido uma constante preocupação nos tempos de hoje.
Tanto em lindas mulheres, mocinhas, criancinhas ainda. A maior idade não poupa e tenta evitar gordurinhas que atazanam a vida da gente.
Nunca as gordinhas, bem nutridas, ao verem uma balança fogem dela como roupas limpas bem passadas tentam escapar da ventania que pode tirá-las do varal e deitá-las no chão mais sujo que pau onde empoleiram galinhas.
Pacientes se enfileiram à espera de uma consulta com nutrólogos (essa palavra existe mesmo? Ou melhor usar nutricionista?) .
Em boa hora tenho o costume de me exercitar sempre. Que seja na academia ou andando. Nas poucas vezes que me olho no espelho logo dou uma olhadinha não pra minha cara feia. E sim mais embaixo. Não ainda pro pescoço que o tenho curto e grosso. Mais abaixo ainda onde mora meu coração sempre apaixonado por muitas delas. Quem seriam elas?
Elas, a seguir numa sequência interminável ficam assim minhas maiores paixões.
Em primeiro lugar uma que já morreu. Minha adorada mãezinha dona Rute. Mesmo estando ausente a trago sempre aqui dentro desse meu órgão pulsátil que se parar vou de encontro a ela.
Em segundo lugar uma namoradinha que o tempo a fez velhinha como eu.
Elazinha, e todas as outras que ocuparam um lugar cativo dentro de mim meu saudoso e apertado abraço. Se me permitirem um beijo demorado. Que, se abatonzado vai ficar em meus lábios como uma tatuagem que não sai jamais.
Nesses tempos hodiernos tenho pedido em namoro uma árvore mais que centenária que mora numa linda praça por onde passei a poucos minutos. Assim a cortejei: “dona Tipuana. Me permite que lhe faça a corte? Se entendeu que pretendo cortar você se enganou. Jamais pensaria em cometer tal sacrilégio.”
Não sei o que ela me respondeu; pois estava de saída daquela linda praça ansioso por chegar à Santa Casa onde fui tão feliz nos primórdios quando aqui cheguei vindo de Madrid.
Chega de lero mais lero.
A seguir, ao olhar no espelho, vejo o estado lastimável da minha proeminente barriga estufada. Quase um útero gravídico, prestes a expelir a cria.
De qualquer lado ela se insinua. De lado ela não esconde a circunferência. De frente ela não atenua minha obesidade.
Por mais que tente perdê-la de novo a encontro. Barrigona é tal e qual guarda chuva. Pra mim o pai dos esquecidos.
Até que minhas pernas são bem fortes e magricelas. Também! Com o uso e abuso que faço delas…
Meus dois pezinhos sofredores não têm nenhum palmo de gordura.
Já meu fígado tem (diz o ultrassom de abdômen que tenho esteatose hepática, fígado gorduroso).
Minha maior paixão no presente não são as mulheres que inda me encantam.
Quanto mais as canto menos elas não me dão bola.
Penso ser devido ao meu exíguo cartão de crédito que está falido. E não à feiúra que espelhos mostram.
Há anos aprendi a amar outra coisa.
Já há muitos anos a escrita me fascina.
Livros editados perfazem mais de vinte e uns. Crônicas escritas somam mais de milhares.
Romances quase somam a seis ou sete.
No meu site www.paulorodarte.com podem ver.
Aprendi, nesses anos todos que escrevo. São mais de vinte e seis.
Que livros, para serem considerados como tais. Precisam parar de pé por sobre a mesa sem escorar noutro.
Sei também que livros obesos incomodam muita gente.
Soberbamente quem não gosta de uma boa leitura.
Quem aqui de Lavras, ou da minha querida Ijaci. Não conhece aquele alegre trabalhador. Que vende empadinhas num enorme balaio dependurado no braço. Roda sem rodas a cidade inteira a vender seus gostosos produtos. Dizem, línguas ferinas, que quando ele volta a sua cidade sem vender todas empadinhas. Sua mulher, a qual desconheço, felizmente pode sobrar pra mim. Bravinha que é, usando um chicote rabo de tatu. Dá uma sova nele que a cidade toda escuta.
Dedé das empadinhas é exemplo de sujeito educado, honesto mais que chuchu.
Foi um dia desses que nos encontramos.
A segunda de outras muitas vezes.
Dedé descia a rua pertinho do meu novo apartamento.
Puxei prosa com ele. Ele, depois de insistir em me vender uma. Como recusei dizendo estar em dieta emagrecedora. Mesmo contra minha vontade tive de saborear uma. De ótimo paladar. Andei ao seu lado uns metros rua abaixo.
Dedé continuava sua vendeção.
Muitos compravam e outros recusavam educadamente.
Já à porta do apartamento. Vendo como ele era bom vendedor de empadinhas. E eu péssimo vendedor de livros ( minha estante repleta de livros meus pode comprovar meu escrito).
Fiz ao Dedé uma proposta não indecente.
“Dedé, quer fazer um acordo comigo? Ponho livros meus no seu balaio. Junto às empadinhas. Você sai vendendo e repartimos o lucro. Topa”?
Dedé ia, com seu balaio cheio pela metade das empadinhas até a estação do trem.
E me disse alegrinho desse jeitinho sorridente mostrando sua banguelice sem dentes: “topo sim. Mesmo não sabendo ler. Tem gente que gosta das minhas empadinhas. E outros que apreciam uma boa leitura. Só tenho receio de que. Seus livros comerem todas as minhas empadas. Ficarem gordos como eu e você. Você mesmo me disse que gente que não gosta de ler. Quando se deparam numa livraria com um livro muito grosso, gordo. Vão embora e não compram”.
Como já havia feito negócio com Dedé das empadinhas.
E ele saiu com seu balaio lotado de suas mercadorias e livros de minha autoria.
No dia seguinte novo encontro entre nós aconteceu.
Pasmem! Olhei pra dentro do seu balaio. As empadinhas eram as mesmas.
Só que meus livros embarrigaram.
Dobraram de páginas e engordaram muito mais.
Se foram vendidos, ainda não sei…