Certos momentos a palavra nos falta.
Um grito fica preso na garganta e não se pode soltá-lo.
Fazer o quê? Em certas situações, em perdas iminentes. Quando nos deparamos cara a cara. Naquele instante fatídico em que a morte se apresenta. Seja vestida em negro noite escura. Que seja envolta num lençol de linho branco. A morte, consequência inevitável de termos vivido. Felizes ou com nosso coração cheinho de amargura.
Não pairam dúvidas que um dia ela vem. Pra uns no momento certo. Pra outros ela compra passagem. Só de ida sem volta. E atinge em cheio aqueles pobres pais de família enlutados pela perda de um filho muito amado. Nada mais triste que um pai enterrar e chorar ao lado do caixão de um fillho. Ao qual amava acima de tudo mais que a ele mesmo.
Sempre tive pelas palavras. Em nosso rico idioma e em outros mais. Uma estima tão forte como tenho pela minha família. Pela minha querida esposa que me acompanha há mais anos tantos como os tenho. Como não faço distinção pelos meus dois filhos. Os quais amo e respeito. Embora tenhamos opiniões díspares por vezes. Esse fato gera discussões.
E o que falar sobre meus três netinhos? A eles daria minha bem vivida vida se fosse preciso.
Não me importo se eles, quando chego as suas casas. Nem me dizem: “vovô ( que palavra mais doce e sonora. Não há qual a ela se equivalha). Eles não se desgrudam dos seus joguinhos. Ficam de olhinhos ligados aos seus tablets ou assistindo a desenhos animados. E eu desanimado volto de onde vim sem ao menos poder dar-lhes um afetuoso abraço de muito carinho.
Como médico já tive de encarar a morte incontáveis vezes.
Tentei vencê-la, algumas vezes consegui. Noutros ela saiu vencedora.
Aprendi a conviver ao lado dela.
Aprendi, na faculdade, nas aulas de anatomia. A fatiar cadáveres exalando um cheiro nauseabundo de formol. Em letras miúdas se podia ler, nas paredes tintas de um branco encardido: “ Hic morte ad intellegendam vitam adiuvant”. (aqui os mortos se alegram a compreender melhor a vida).
Na idade em que estou a morte não me mete medo.
Se por ventura de uma desventura ela. A morte me olhar num leito de hospital. À mercê da extrema unção. Sem ao menos poder piscar dolhos. Dar um beliscão no traseiro lindo de uma enfermeira boazuda e nem poder convidá-la a um jantar a luz de um casal de pirilampos com suas luzinhas acesas. Aí sim a presença dantes hedionda da morte será menos feia.
A essa mulher guerreira. De muito tutano. Valente que não se dobrou à presença iminente da morte. A ela resistiu estoicamente. Vendo suas forças fraquejarem paulatinamente.
Tudo fez tentando postergar a visita da morte.
Enfrentando sem demonstrar sofrimento todas as dores que lhe consumiam o corpo.
Buscando recursos que a medicina podia a ela oferecer aqui em outras cidades maiores.
Não medindo esforços em viagens cansativas. A ela mais ainda do que pacientes em melhor estado.
Sem demonstrar fraqueza ela. Inflando-se de forças que não tinha.
Sem vaidade ela cobria sua calva com uma bandana ou um chapeuzinho quando seus cabelos caíram.
Sempre com um sorriso no rosto. Por vezes emburrado, quando a via na confecção de sua irmã. Ela também era mestra com as tesouras fazendo fantasias lindas a serem usadas por colegiais das escolas de nossa cidade.
Sei que você, minha valente cunhada. Se não me engano era graduada; em nossa universidade em engenharia agrícola.
E bem me lembro. Anos avoam sem asas. Quando no começo da minha vida como produtor rural. Pensando que todo médico podia ser fazendeiro. Aventurei-me a tirador de leite. Mal sabendo a razão de o leite ser branco uma vez esguichado das tetas de uma vaca preta.
Foi você minha guerreira que enfrentou a morte com as armas que possuía.
Se não me falha a memória que de vez em quando claudica.
Que a meu pedido desenhou o velho curral. Aproveitando os velhos canzis que lá existiam. Hoje tudo aquilo que você fez ainda está de pé no mesmo lugar na minha rocinha querida.
Pena que você não vai poder me acompanhar àquele lugar magnífico. Cercado de muito verde. Onde você ajudou, e muito a florescer com as mudas do seu jardim.
O que dizer a você, Juliana. Esposa amada do Paulo. Que tanto te ama e fica sempre perto da sua pessoa. Que um dia, tomara não seja hoje a sua despedida. De nós, que tanto a admiramos.
De que adianta tentar dizer a você. Já que não me escuta mais. De olhos fechados não pode me ver.
Mas te digo, melhor deixo escrito caríssima tia Ju.
Vais deixar uma lacuna impreenchível no coração não apenas d aPaulinha. Do aguerrido André, da sua esposa. Do outro filho tenho por mim chamado pelo sobre Lasmar. Dos seus netinhos. Pelos quais demonstrava tanto carinho. Espero que num dia você, tia Ju, vai reecontrá-los todos juntos no céu. Que te espera em breve.
Já sei o que dizer a você. Minha querida Juliana Lasmar.
Se tens mesmo de ir embora.
Se porventura encontrares meus pais onde eles estiverem.
Diga a eles que sinto uma saudade imensa. Como você vai deixar no coração de todos nós.