Foi tarde

Antes tarde do que nunca.

Assim pensava um amigo meu. Gente boa da roça. Que acordava ao nascer do sol. Dormia junto às galinhas. E não tinha um só dia de descanso.

Ziquiel, imagino que seu nome foi trocado no cartório de registro de nascimento, pois quem fez o registro daquele recém-nascido não estava num dia bom, pois havia tomado todas na véspera, num boteco infecto, cheio de baratas e traças, tendo chegado ao cartório ainda cheirando a cachaça, acabou trocando seu nome, ao invés de Ezequiel, acabou confundindo algumas letrinhas, e por sua conta e risco acabou o menino sendo registrado como Ziquiel.

E assim permaneceu pelo resto da vida. Uma vidinha curta. Cheia de percalços e atropelos. Recheada de trabalho duro. Naquela rocinha herança de familia. Onde os antecessores viviam da renda do leite e do plantio de mandioca, além de uma horta de couve que dava inveja na vizinhança tal a quantidade de verduras fresquinhas que eram vendidas na cidadezinha perto, as quais tinham freguesia cativa.

Ziquiel não renegava o trabalho. Era enxada pra toda hora. Não só carpia o mato como roçava a pastaria.

Nunca o percebi demonstrando cansaço. Também não tinha um só palmo de gordura sobressalente. Era magricela como um varal fininho. Como um bambu que servia de suporte as roupas dependuradas no varal.

Naquele dia de fevereiro choveu a enxurradas descidas do morro topetudo. Uma barreira mole impedia qualquer acesso àquela rocinha enfiada nos cafundós de Judas.

Foi uma aguaceira que escureceu o céu naquela noite de dezesseis de fevereiro. Acompanhada de uma ventania que nunca se havia visto antes.

Nos arrabaldes não se comentava noutra coisa. Pertinho dali acabou soterrada uma família que só foi encontrada dois dias depois. Todos morreram soterrados num mar de lama.

Ziquiel acabou ajudando no resgate daqueles corpos velhos conhecidos. Pois quando os bombeiros chegaram já era tarde da noite.

E a chuva continuava por dias a fio. Quando parecia que a chuva fosse parar mais água descia do alto. Cadê o sol? Era o que todos perguntavam.

Fevereiro continuava do mesmo jeito. O carnaval se avizinhava. E a tal pandemia mais uma vez impedia qualquer aglomeração. Na maior parte das cidades a festa de momo foi mais uma vez desaconselhada.

Durante o resgate daquela familia, Ziquiel, mais sujo que pau de galinheiro, enfiado até o pescoço naquele mar de lama, arfando de cansaço, não desanimava.

Foi quando o encontrei. Não tive tempo de ficar ali dado ao risco que todos corriam.

Durante a nossa curta conversa, não tinha tempo a perder, acabei perguntando se ele precisava de alguma ajuda.

Ziquiel, meio atordoado, perdido entre naquele lamaçal grudento, apenas me respondeu, num muxoxo: “já vai? Foi tarde. Não tenho tempo a perder.”

Foi o que fiz. Dois dias depois soube noticias do amigo Ziquiel. Ele acabou perdendo a vida tentando ajudar aos outros.

Gente como ele nunca deveria partir tão cedo. Antes tarde do que nunca. Para ele foi cedo demais. Heróis de verdade acabam perdendo a vida cedo demais.

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