Hoje, nesta manhã linda, acordei com o sol brilhando.
A mesma hora de sempre.
Ontem choveu durante a noite. Nada que impedisse meus sonhos.
Agora, precisamente as seis e quarenta e dois da manhã, daqui de cima olho um cenário bastante peculiar.
Dois lotes vazios. Uma edificação começa. Naquele espaço passei os melhores tempos de minha vida. Foi ali que moraram meus pais.
Dentro em pouco nada mais restarão a não serem lembranças. De um passado que não consigo sepultar.
Sou privilegiado por ter nascido naquela familia. Fui feliz e ainda sou dadas as circunstâncias do meu nascimento.
Tive por pais pessoas admiráveis. Meu pai foi um exemplo a ser seguido. Minha mãe, que tanto inspira saudades, sempre a tenho comigo em pensamentos.
Por detrás de mim, naquela estante, junto aos meus livros, figuram fotografias dela em épocas distantes. A primeira, olhando pela janela, da casa dos meus avós, minha querida mãe posa num lindo vestido branco. Acredito que ela o usou na formatura. Não no casamento. Foi há tempos atrás. A outra, já mais recente, antes do seu passamento, a vejo entre nós dois. Minha esposa eu ladeavam aquela senhora elegante, trajando um conjunto azul, como o céu se mostra nesta manhã tão linda.
Considero-me um afortunado não apenas por ter nascido destes pais por demais preciosos. Como também pela educação esmerada que tive. E como me trazem saudades a minha infância perdida ao sabor dos tempos. Foi naquela rua, que daqui se avista onde aprendi a conviver com amigos. Muitos deles já não fazem parte deste mundo. Partiram rumo a uma viagem que dizem não ter volta. Embora duvide dessa assertiva.
Somos afortunados por vivermos nesta cidade considerada terra dos ipês e das escolas. Onde, apesar de seus defeitos, quem não os tem? Por aqui não acontecem calamidades que têm acontecido em outras paragens. Felizmente somos bafejados por uma sorte a qual não temos como duvidar.
Somos afortunados por ter ainda capacidade de me condoer com sofrimento de outrem. A sensibilidade me consome. A idade em que me encontro ainda me permite sonhar com dias melhores.
Sou um afortunado por ter tido a chance de me graduar em uma universidade excelente. Assim como sou aquinhoado pela sorte de ainda poder observar a luz do sol, com meus olhos que enxergam além das entrelinhas.
Sou afortunado por ter atingido esta idade sem ainda ver aboletada em mim alguma enfermidade que não me permita exercitar-me a cada dia. Sou refém de atividade física. Como me apraz a arte de escrever.
Somos afortunados por ainda estarmos vivos. Depois de catástrofes que têm ocorrido em outras cidades, de nosso amado Brasil.
Considero-me afortunado por ainda poder sentir na pele o arrepio de felicidade. Embora a tristeza por ver tantas vítimas me fazem condoer daquele sofrimento inexplicável.
Sou de fato um afortunado. São tantos os motivos, que seria impossível catalogar tantos deles.
E como desejaria que esta fortuna fosse estendida a tantos quantos fossem os brasileiros. Hoje a nossa população encontra-se desassistida pela sorte. Sofrendo na carne todas as desventuras imagináveis.
Somos afortunados por tantas razões. E como gostaria que esta sorte bafejasse na face de meus compatriotas. Gente que não merece tamanho sofrimento.