Quase sempre somos surpreendidos com noticias nada agradáveis.
A perda de um amigo. Quando nossos pais se fizeram ausentes. A doença que chega de repente.
A fatalidade que tem assolado o mundo inteiro. A chuva que tem feito vítimas. As despedidas não previstas. Ou até mesmo a alegria de ter um filho nos braços pela primeira vez.
Estar preparado para qualquer acontecimento não requer vacina. E eles acontecem independentemente de nossa vontade. Por mais que desejássemos a vida seria tão apetitosa como um sorvete de creme misturado a chocolate. Mas nem sempre isso acontece.
Por vezes a morte se anuncia. E ela vem sem aviso prévio. Sem mais ou menos perdemos amigos. Algumas mortes são anunciadas. Depois de uma doença consuntiva. De prognóstico sombrio. Como os dias sempre cinzentos, chuvosos, como neste começo de ano.
Ontem soube, pela voz de terceiros, que o céu cinzento acaba de receber um profissional exemplar. Depois de curta enfermidade ele partiu a um lugar ainda por mim desconhecido.
Já o conhecia de longa data. Fomos vizinhos em um condomínio onde morei até pouco tempo.
Ele costumava brincar sempre sorrindo com suas pilhérias de extremo bom humor. Nunca o vi se lastimar da vida. Ao revés. Ele, sempre de máscaras, naquela sala ampla, tratava os seus pacientes com a maior cortesia. Ainda me lembro daquela vez que estive assentado àquela cadeira. Não podia falar se estava sentindo dores. De boca aberta apenas fazia gestos. Se carecia de mais anestesia ou estava tolerando o tratamento. Nada mais indigesto do que estar assentado na cadeira do dentista. Ficar horas e horas e horas de boca aberta, ouvindo o barulhinho do motor, sem poder manifestar o nosso sentimento.
Depois de horas a fio ele nos permitia levantar. E não sei o que doía mais. Se a conta salgada ou a sensação de dever cumprido.
Mesmo assim a gente retornava. Para quem ainda tem dentes, e felizmente dispensa dentadura, não há como postergar a visita ao dentista.
Ele, que passou ao além no dia de ontem, deixou entre nós lembranças que irão nos acompanhar para sempre. Não apenas pela fidalguia e competência. Como pelo zelo profissional.
Não pensava que atletas iriam tão prematuramente. E meu amigo partiu pedalando rumo ao céu.
Fomos parceiros nas quadras de tênis. Vizinhos de moradia. Amigos um tanto ausentes.
Nos tempos de agora tenho como dentista um filho seu. Continuador de sua lida.
Ontem meu amigo Fernando tomou outro rumo. Imagino-o pedalando nas alturas.
Distribuindo cortesia aos anjos. Fazendo piadas ao Deus Pai.
Infelizmente não somos capazes de prever acontecimentos. Muitos são previsíveis. A chuva que deve cair. O sol que pode voltar a brilhar. Outro dia que irá suceder ao ontem. O amanhã que nem sempre virá.
Ontem partiu um amigo. Infelizmente foi uma morte imprevisivelmente dolorosa. Não apenas para sua esposa e filhos. Como para nós também. Que tivemos a chance de conhecê-lo. Admiradores que somos de sua pessoa íntegra. Exemplo de bom profissional.
Fernando se foi. Deixou uma lacuna enorme. Não apenas no coração de seus filhos, esposa amada, como também de todos nós. Seus amigos e admiradores.
Perdas e danos acontecem. Difícil é prever quando será a próxima vez.