De recordações em saudades a gente vai vivendo.
Daquela infância perdida. Daqueles anos doirados. Daqueles que se foram e um dia nos encontraremos.
Ainda me lembro de quando menino. Que vontade de retroceder no tempo.
Meus cinco anos deles ainda me lembro. Quando aqui cheguei. Vindo de outra cidade.
Pra onde voltei em duas ocasiões apenas.
Numa delas, que se perdeu no tempo, passei pela rua onde nasci. Na rua Coqueiral, um sobrado onde moraram meus pais, ou naquela mesma pracinha, dedinhos apontados em riste, como se fosse um revólver, trajando um terninho azul escuro, cabelos doirados, e como eu me parecia ao meu netinho Theo, nascido anos depois.
Diziam, nos fundos daquela casa, existia um pé de camélia rosa. Procurei-o, durante a minha visita, mas não o encontrei. E não encontrei nada que me lembrasse do velho galinheiro, onde fui fotografado, com os trajes que vim ao mundo, cercado de galinhas. Sob ameaça iminente de perder a minha fimose, operada anos depois pelo saudoso doutor Silvio Menicucci, pai de nossa prefeita atual.
Daqui de cima percebo a rua onde cresci. Ali fiz amigos. De vez em quando me pergunto: “pra onde foram os meninos da Costa Pereira”? Aquele velho hospital ainda continua no mesmo lugar. O velho clube, agora modernizado, não mais existe o trampolim. As piscinas, agora aquecidas, foram modernizadas. As duas quadras de tênis continuam as mesmas. Pena que meu pai não joga mais lá.
E a velha casa, onde passei os melhores anos de minha vida, hoje se resume a um lote vazio. Perto dela havia outra casa. Dividíamos paredes com meu querido tio Chico Rodarte, irmão de minha saudosa mãe Rute.
Foi naquela mesma rua que ainda reside parte das minhas lembranças. Do meu cãozinho Rebel. Que acabou perdendo a vida tentando me defender das mordidas de outro cão bem maior do que ele era.
Passados os anos, quando aqui retornei, vindo de terras d’além mar, já médico especialista feito, há inexatos quarenta e cinco anos, como o tempo passa depressa, depois de anos de trabalho constante, acabei me mudando pra outra casa, ainda a posso ver ao longe, no bairro Centenário, uma casa enorme, agora transformada numa escolinha, radicalmente mudada.
Minhas lembranças não param por aí.
Ainda me lembro do meu casamento. Foi uma festa bastante concorrida.
Passamos a lua de mel na cidade do Rio de Janeiro. Num luxuoso hotel à beira do mar.
Dando um salto no tempo ainda me recordo da vez primeira que tive nas mãos a primeira operação. Aqui na minha Lavras querida. E como minhas mãos tremeram. Depois acabei me acostumando tanto aos sucessos como os fracassos.
E como o tempo passa veloz. Hoje, ainda não aposentado, o médico não tem esse direito, quem decreta a sua aposentadoria é o paciente, decidi, por minha conta e risco, dividir a medicina com outra atividade bastante prazerosa. Ser avô me ajuda a retroceder no tempo. Escrever o que o cotidiano dita me ajuda a conviver com as contrariedades que a profissão por vezes me traz.
E assim vou vivendo. Nunca me desvencilhando do passado. Ele me traz não apenas boas lembranças como me enche de saudades.
Daqueles anos bons. Que, infelizmente, não voltam mais.