De repente, ao me olhar no espelho, me vejo aos cinco anos.
Um cadinho depois. Já que naqueles tempos se começava a estudar por volta dos seis.
Foi naquele mesmo colégio, cujo uniforme era da mesma cor dos dias de hoje.
O verde, das maritacas e o branco da mesma cor da alma dos anjos.
Se bem me lembro o ano era de um mil novecentos e cinquenta e seis. Eu contava com exatos seis aninhos. Muito parecido ao meu primeiro netinho o Theo.
A escolinha era pertinho da casa onde morava. Naquela rua de nome Costa Pereira, hoje reduzida a saudades, já que aquela casa não existe mais.
O jardim da infância foi povoado de brincadeiras infantis. Tive como coleguinhas meninos e meninas, muitos deles já partiram rumo ao céu.
Restam alguns. Não vou declinar-lhes os nomes. Pois muitos já nem me lembro mais.
Depois comecei a estudar de verdade noutro colégio. Ele ainda está situado na mesma praça. Pertinho do mesmo banco, onde comecei a namorar.
Já mais crescidinho passei a outro colégio. Na parte de baixo da cidade. Usando o mesmo uniforme verde e branco. E envergando outros sonhos. Já mais adiantado na idade.
Tempos são outros. Eu deixei aquele colégio em direção a capital do meu estado. Já pensando na profissão que até hoje persisto. E espero continuar como médico até o final dos meus dias.
Hoje, neste sete de fevereiro, recomeça o ano letivo.
Os personagens são outros. Meus três netinhos recomeçam o mesmo caminho que eu percorri.
Theo, o de mais idade, já está matriculado naquela mesma escola onde estudei. Gael, o do meio, preferiu se matricular em outra escola. Onde minha querida mãe se graduou em professora. Já o Dom, o mais espertinho, segue o caminho do irmão mais velho.
Imagino como será este primeiro dia de aula. Daqueles três menininhos que me fazem lembrar de como era eu.
E como gostaria de voltar àqueles anos. Acompanhar meus netinhos de merendeira às costas. Vestindo o mesmo uniforme. Assentar-me àquela mesma carteira. Compenetrado assistindo a aula. Daquela mesma professorinha que me ensinou o b-a-bá.
Como seria bom voltar a ser criança. Doce infância que infelizmente não volta mais.
Hoje vai ser o primeiro dia de aula dos meus três netinhos. Pena que não posso assentar-me pertinho deles. Acompanhar-lhes os passinhos. Daquele mesmo jeitinho que minha mãe me levava.
Se pudesse retroceder no tempo faria com enorme contentamento.
Daria um jeito de voltar nos anos. Retornar à mocidade. Melhor ainda me sentir como menino. Ainda sem as responsabilidades acumuladas com o passar do tempo.
Hoje volta as aulas naquele mesmo colégio onde estudei.
Theo vai estar lá. Dom vai lhe fazer companhia. Gael vai estar um pouco distante.
E eu, longe de tudo isso, se pudesse voltar no tempo, sonhando acordado, daqui do alto percebo, lá embaixo, onde tudo começou. Naquela mesma rua, a velha Costa Pereira, no jardim da infância Narizinho Arrebitado, onde comecei o mesmo caminho dos meus queridos netinhos. Que eles sejam felizes. Tanto ou mais do que eu fui.