Pra ele apenas isso resumia felicidade

Torna-se, para quem não a sente, difícil definir o que seja felicidade.

Pra mim ela se resume nisso.

São instantes apenas. Fugazes momentos. Quando o coração bate forte. Uma sensação inequívoca de contentamento. Inconfundível sentimento que nos abraça por dentro. Quando nos encontramos com uma pessoa querida.  Ausente por muito tempo.

Felicidade é desprovida de vaidade. Ela se manifesta quando menos se espera. Numa curva do caminho. Ou numa encruzilhada.

Ela tem o sabor de uma feijoada igualzinha àquela que nossa mãezinha fazia.  Ou o cheiro de alecrim com canela. Ou a claridade do sol depois de dias chuvosos. Igual ao dia que amanheceu neste três de fevereiro.

Felicidade tem como partícipe a alegria. O sorriso fácil. Ou um abraço apertado bem dado. Depois de anos de ausência.

Felicidade, pena, não dura eternamente. Ela aparece como o arco-íris depois de uma tempestade. Tem as mesmas cores lindas que os olhos enternecidos de nossa mãe quando ela nos olhava com olhos de puro amor.

Felicidade não tem idade. Tanto pode se manifestar desde a tenra idade quanto na velhice. Ela é efêmera como a vida da borboleta. E tem as mesmas cores de suas asas multicores.

Há tempos o conheci. Era meu vizinho de pasto.

Antes de a represa inundar-nos as terras, podíamos nos encontrar pulando um ribeirãozinho magricela, cheio de lambarizinhos de rabinho vermelho, ariscos e desconfiados, que não se deixavam fisgar pelo anzol.

O amigo Tião do Cervo, não sei por que tinha este nome, pois havia nascido por ali mesmo, morava numa rocinha pequenina, num lugar ermo, tinha o costume de plantar verduras, não para vender, e sim para distribuir aos amigos.

Era de nosso costume, quando por ali passava, entrar naquela hora imensa, por uma pinguela tosca, e de lá sair com um saco repleto beterrabas vermelhinhas, cenourinhas que se desmanchavam sem precisar de cozimento, couves flor de pura beleza, abobrinhas miúdas de um verdume impar, até mesmo batatas doces que nos faziam salivar de tão apetitosas que eram.

E pra não me esquecer das mandiocas amarelas, que quase não careciam de água quente para serem comidas com um cadinho de sal grosso.

Tião do Cervo era a bondade personificada em pessoa. Admirado nas vizinhanças. Nunca o vi sem aquele sorrisão a enfeitar-lhe os lábios vermelhos como as beterraba que ele plantava.

Um dia, infelizmente, a represa do funil nos apartou.

Agora carecia de ir a nado para chegar às suas terras. Ou ir num barquinho de madeira. Que ficava ancorado do outro lado da represa.

Um dia meu amigo Tião do Cervo foi chamado a plantar verduras no céu. Ele foi a óbito aqui pertinho. Na mesma Santa Casa onde sempre trabalhei.

Só fiquei sabendo do seu passamento tempos depois. Agora, em sua casinha nos fundos da minha rocinha só restam saudades dele.

Foi quando me lembrei de umas das definições do que seja felicidade.

Foi através de um amigo do Face, por meio de um de seus filhos, de nome João de Oliveira.

Assim ele deixou escrito: “ doutor Paulo. Esse era o preço da felicidade. Uma horta, um pouco de esterco, e água da represa, e o prazer de ver os amigos. Carregando verduras sem pagar nada. Assim era o nosso pai herói. Amo infinitamente. Vou amar o resto de minha vida”.

Agora, ao me lembrar do amigo Tião, com seu sorriso constante, com sua bondade infinita, com sua alegria contagiante, melhor defino o que seja felicidade.

Felicidade combina com amizade. Aonde quer que o senhor esteja, por certo ao lado dos meus pais, a minha saudade imensa.

Um dia nos encontraremos. E quem sabe, aí no céu, talvez exista uma horta imensa, igualzinha aquela onde de vez em quando nos encontrávamos.

 

 

 

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